Daron Malakian entrará em estúdio para gravar o terceiro álbum do Scars on Broadway

No dia do lançamento do novo single do Scars on Broadway, a revista Rolling Stone publicou uma entrevista inédita com Daron Malakian. Temas como o novo disco do System of a Down, um terceiro álbum do Scars e a vida pessoal do guitarrista são abordados na matéria. Confira!


“Vou ser honesto, tem sido difícil”, diz Daron. “Tem sido difícil ser paciente.”

Daron agora está pré-lançando o álbum ‘Dictator’, que estará disponível no dia 20 de julho, com um novo single chamado ‘Lives’, que pretende rememorar o Genocídio Armênio e celebrar seus sobreviventes. “All of our lives we’ve put up a fight, all heroes have died”, ele canta em sua faixa, quase operística. “All of our lives we’ve known wrong from right, our people survived”.

“Eu sou armênio, então eu queria fazer algo para o povo armênio, especialmente para o dia 24 de abril, que é o dia em que nos relembramos do genocídio”, diz Daron, destacando a data que o país reconhece como o início do massacre propagado pelos turcos otomanos em 1915. “É sobre o orgulho das pessoas que sobreviveram ao genocídio, não é apenas para o povo armênio. Pode ser para qualquer pessoa cujo povo tenha sofrido esse tipo de atrocidade, como os nativos americanos.”

Ele também está usando a música para causar mudanças positivas nos sobreviventes do genocídio. Metade dos lucros da compra da faixa no iTunes será destinada para o envio de kits de primeiros socorros para Artsakh, uma república habitada principalmente por armênios que faz fronteira com o Irã e o Azerbaijão. “Era para ser um cessar-fogo, mas o governo do Azerbaijão não segue isso, então há muitas mulheres e crianças que são afetadas no meio de tudo isso, eu realmente queria mandar alguns kits de primeiros socorros para os armênios que vivem lá”, diz Daron, se referindo ao conflito entre o país e o Azerbaijão. “É muito possível que outro genocídio possa acontecer, então eu realmente quero chamar a atenção para o que está ocorrendo lá e impedir que isso aconteça.”

Malakian explica o que as pessoas devem esperar do retorno de Scars on Broadway e o futuro do System of a Down.

O que a faixa ‘Lives’ aborda?
Para mim, é sobre como os armênios sobreviveram ao genocídio. Eu sempre ouvi sobre como nós éramos vítimas, e sempre víamos fotos de nossos ancestrais e nossos bisavós com as cabeças cortadas. Eu queria escrever uma música que fosse um impulsionador moral, algo estimulante e que as pessoas soubessem que enquanto muitos morreram, e merecem respeito por isso, há também muitas pessoas que sobreviveram. É uma homenagem a todos e ao patamar onde chegamos. O vídeo complementa a música muito bem.

Como o vídeo ganhou forma?
Apresentamos um monte de dança folclórica armênia tradicional que combina com a música. Meu pai, além de ser um artista (ele fez a primeira capa do álbum do Scars e os álbuns do System ‘Mezmerize’ e ‘Hypnotize’) era um coreógrafo bem conhecido no Iraque antes de sua família se mudar para os Estados Unidos. Sempre foi uma parte da minha vida. Quando eu escrevi a música, sempre imaginei o vídeo com esse estilo de dança e figurino. É também outra maneira de aumentar a moral, nos fazer olhar para a nossa cultura e ter orgulho de nossa origem. Quando as pessoas pensam em armênios, pensam em genocídio. Eu não quero ser sempre visto como uma vítima. Eu quero mostrar às pessoas outras partes da nossa cultura, e esse vídeo faz isso.

Você tocou na Republic Square, em Yerevan, na Armênia, no centésimo aniversário do genocídio com o System of a Down. Como você se sentiu?
Esse foi um ponto alto da minha carreira como músico. Eu acho que todos no System of a Down se sentiram assim. O show foi ótimo e muito emocionante para nós.

Você ficou muito tempo na Armênia?
Não, eu só estive lá uma vez. Fiquei lá por quatro, cinco dias. Foi tempo suficiente para ver algumas estátuas, monumentos e coisas assim. Foi muito emocionante para mim, porque eu tinha avós que nasceram lá, mas depois tiveram que se mudar para o Iraque por causa do genocídio. Eles não estão mais por perto, mas eu senti o espírito deles comigo quando estava viajando para a Armênia e no palco. Foi bem emocionante.

O presidente Trump foi sincero em seu apoio a Jerusalém e Israel. Você acha que ele tomaria uma posição semelhante e reconheceria o genocídio armênio?
Não, eu não vejo o Trump fazendo isso. Os Estados Unidos têm um relacionamento com a Turquia. É um relacionamento político e acho que eles não querem ofender o país. A relação está um pouco instável ultimamente. Há políticos americanos que dizem que reconhecem o genocídio, mas acho que entendo por que isso não acontece. Precisamos que a Turquia seja uma aliada nessa região.

Obama disse que, particularmente, ele reconheceu, mas isso foi o mais longe que ele chegou.
Sim, é difícil. Eu tenho uma frase na música que diz: “Nós somos as pessoas que foram expulsas da história”. E isso é uma referência a tudo. Eu não cresci vendo o genocídio nos meus livros de história. Foi quase como se eles tivessem apagado essa parte da história. Para os armênios, é frustrante. Isso afetou nossa cura. Em ‘Lives’, quero ajudar nessa restauração.

Vamos falar sobre o álbum Dictator. Você lançou um teaser em 2012.
Eu gravei o álbum e, em seguida, naquela época, o System começou a tocar ao vivo novamente. Então, toda vez que tocávamos ao vivo, havia conversas como: “Talvez iremos fazer um álbum”. Então, sendo o cara que escreveu a maioria de quase todas as músicas do System no passado, eu pensei, “Tudo bem, deixe-me ver o que está acontecendo aqui. Deixe-me segurar essas músicas e deixe-me ver como isso se desenvolve.” Nós conversamos sobre isso e não estávamos todos na mesma sintonia. Nem todo mundo entendeu a ideia.

Eu só cheguei a esse ponto porque muitas pessoas me perguntam sobre o álbum do Scars (eu ouço isso o tempo todo), então eu decidi: “Eu vou lançar esse álbum!”. Não ter noção sobre o que está acontecendo com o System me impediu de divulgar meus próprios materiais. Muito tempo se passou, e estou realmente empolgado por estar finalmente lançando algumas músicas.

Está tudo no álbum de 2012?
Sim. Eu toquei tudo nele. Fui ao estúdio e gravei um álbum em menos de 10 dias. Eu toquei todos os instrumentos, a bateria, tudo, e acabei esquecendo dele por seis anos [risos].

Por que você quis gravar tudo sozinho? O baterista do System, John Dolmayan, esteve no seu primeiro álbum.
Eu percebi que era melhor eu continuar por conta própria. John não estava mais envolvido quando gravei o álbum. Isso me pareceu mais fácil do que reunir um grupo de músicos e ensinar-lhes todas as partes.

Quando você escreveu as músicas, você estava pensando nelas como músicas do Scars on Broadway?
Sim, mas este álbum tem mais o sabor de System do que o primeiro. Havia músicas no primeiro disco do Scars, como ‘Stoner Hate’ e ‘Babylon’, que poderiam facilmente ter sido músicas do System of a Down, mas também havia músicas que se inclinavam um pouco mais para o rock. Este álbum também tem aquele sabor de rock, mas também tem um sabor de System of a Down, porque o System tem mais vertentes do metal.

Por que você acha isso?
Eu não sei. Quando você ouve o System of a Down, tem muito da minha assinatura. Não importa o que eu escreva, você vai ouvir essa pegada. É algo que sai desse jeito.

É estranho estar fazendo isso seis anos depois? Você tinha que ter crescido como artista desde então.
Eu gostaria que não tivesse demorado seis anos. Um arrependimento que tenho é não ter lançado nenhuma música nesse tempo, mas não é muito estranho porque o estilo ainda está lá. Ainda é parte da minha assinatura, mesmo com as coisas que escrevo agora. Eu vou lançar um terceiro álbum do Scars em breve também. Eu escrevi muitas músicas para isso, e estou ensaiando com a banda, e nos próximos quatro meses mais ou menos esperamos entrar no estúdio.

O System of a Down abandonou a ideia de fazer um novo álbum?
Não, a ideia não foi abandonada. Mas nesse momento nem todos estão na mesma sintonia. Cara, acredite em mim, eu sou provavelmente o maior fã do System of a Down no mundo. Eu nomeei a banda [risos]. Então eu gostaria de ver algo assim acontecer.

Mas somos todos amigos. Nós todos ainda saímos. Nós tocamos as músicas ao vivo. Nós gostamos disso. Mas fazer um álbum é algo totalmente diferente do que tocar as músicas que já temos. É preciso um pouco mais de união, um pouco mais de compromisso de todos, e não tenho certeza se todos estão prontos para se comprometerem com isso agora. Eu não posso forçar ninguém a fazer algo que eles não queiram. Mas mesmo assim, nosso relacionamento como amigos e até como banda é saudável. É respeitoso e nos apoiamos mutuamente com qualquer projeto paralelo. Não é uma daquelas situações em que há sangue ruim em que um não pode estar mesma sala de outro cara. Tudo realmente se resume ao momento onde cada um está em sua vida, e nem todos estão dispostos a se comprometerem da mesma maneira em que eu poderia estar.

É o problema com o compromisso de tempo de fazer um álbum ou um desacordo criativo?
É criativo e tempo. Eu não tenho filhos, mas todos eles têm. Eles estão em um lugar um pouco diferente. Não é o caso de dizer “isso não vai acontecer”, mas a partir de agora, não é o momento.

O System of a Down confirmou algumas datas para este ano. O Scars on Broadway estará em turnê?
Nós não temos nada definido, mas se boas oportunidades aparecerem para fazer algo legal ou abrir para bandas maiores, eu estou muito disposto para fazer turnês. Estamos planejando fazer alguns shows, mas não há datas nem nada.

Desde que você tem ficado em grande parte do tempo fora dos olhos do público, além de turnê, como você gasta seu tempo?
Eu ainda escrevo. Eu tenho muito material. Eu tenho uma namorada com uma família. Eu ainda estou focado na música nos últimos dois anos. Eu fiz uma canção com o Linkin Park há alguns anos atrás. Quando as coisas acontecem no meu caminho, eu faço, mas ainda me concentro em escrever. Não tenho lançado nada principalmente porque não tinha certeza do que estava acontecendo com o SOAD. Sempre hesitei. Mas eu me mantenho ocupado escrevendo. Eu sou o tipo de cara que mesmo que ninguém ouça o que eu faço, eu ainda gosto de escrever, então é isso que eu faço.

Falando em Linkin Park, você recentemente se juntou à banda no palco para o tributo a Chester Bennington. Isso foi difícil para você?
Foi meio estranho, porque os vocais de Chester estavam em segundo plano durante toda a música, através dos monitores. Foi meio emotivo para os membros de sua banda. Quando estávamos ensaiando, eu lembro deles me dizendo quando ouviam os vocais isolados de Chester no estúdio, aquilo era emocionante.

Eu realmente gostei de trabalhar com esses caras em ‘Rebellion’. O que aconteceu com Chester foi um choque, porque eu nunca iria adivinhar isso dele. Ele era o tipo de pessoa que levantava seu ânimo se você estivesse de mau humor. Mas essa música foi divertida de fazer, e acho que também tem uma pitada de System. Quando escrevi com o Linkin Park ou quando componho meu próprio material do Scars, esse estilo de assinatura está lá.

Como esse estilo se desenvolveu?
Nos primeiros dias do System, Serj Tankian e eu estávamos em uma banda chamada Soil. Foi ali que o som se desenvolveu, mas com o Soil estávamos fazendo músicas de seis ou sete minutos de duração, e elas não eram realmente músicas, eram riffs. Quando eu tinha 18, 19 anos, comecei a ouvir compositores como Bowie e os Beatles, então eu pensava: “Eu quero pegar o que estamos fazendo aqui no Soil, comprimir tudo em dois minutos e meio e torná-las em algo com uma estrutura de música, onde existem versos, refrões e ganchos”, foi assim que o estilo do System foi criado.

Naquela época, eu queria escrever músicas que não podia comprar na loja de discos. Eu queria uma banda que tivesse tudo. Você pode ver o System como uma banda pesada, mas existem todos os tipos de elementos acontecendo estilisticamente, não é apenas heavy metal, e eu não tive medo de misturar outros ritmos com o metal. E há humor no System of a Down, que é algo que muitas pessoas tímidas evitam. Às vezes é difícil conseguir, mas nós temos isso. Eu simplesmente não consegui encontrar outra banda na loja de discos que eu queria ouvir. Agora, quando escrevo, isso flui para fora de mim desta maneira.

Comentários (4)

  • Cayo Narciso

    Excelente entrevista

  • Dener

    esse cara é muito foda

  • Miguel Junior

    Bem maduro quando falou do Trump, talvez o Serj no lugar dele teria falado merda.
    Claramente existe um “zé ruela” empacando o System.

  • Cleison Silva

    Meu ídolo sempre sábio, que pena ele não ter lançado esse álbum antes.