John Dolmayan sobre o futuro da banda, a campanha do These Grey Men, Billy Corgan & EDM

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John Dolmayan é conhecido principalmente como o baterista calado e feroz do System of a Down, mas ele realmente se abriu durante uma conversa de 30 minutos, mostrando uma paixão genuína ao discutir não apenas sua própria música, mas o estado da indústria da música. Dolmayan está atualmente trabalhando em um álbum de covers com James Hazley do Cockeyed Ghost, em seu novo projeto chamado These Grey Men. Eles lançaram uma campanha Kickstarter com vários prêmios, incluindo uma olhada aos bastidores da gravação do disco, baquetas e muito mais.

Nesta entrevista Dolmayan discute sinceramente o status do próximo álbum dos System of a Down, como ele planeja reinventar faixas de artistas que vão de Madonna a David Bowie no álbum de covers These Grey Men, como foi tocar com Billy Corgan em 2009, sua esperança de escrever um álbum de músicas originais com o There Grey Men e também fala profundamente sobre sua previsão de que a Electronic Dance Music enfrentará um retrocesso como o disco.

O que levou você e seu parceiro James a recorrer a uma campanha Kickstarter ao invés de procurar um selo de gravadora ou um caminho tradicional?

Bom, não tenho certeza se eu poderia acabar indo a um selo em algum ponto para distribuição, mas não queria depender de um selo. O principal é que as pessoas não pagam mais tanto por música de um jeito tradicional. Um selo é mais o jeito tradicional de fazer as coisas. Simplesmente não tenho segurança de que vai ser o caminho certo a se seguir.

Você acha que com o declínio das vendas de álbuns em geral, poderia imaginar mais bandas fazendo essas arrecadações e ver isso expandindo daqui alguns anos? Você vê esse um modelo dando certo na indústria da música?

Espero que não porque há algo a ser dito sobre cultivar uma banda. A produção que os selos fazem, o marketing que eles fazem, acho que ainda são relevantes e ainda pode ser utilizados. Mas se eles não mudarem, então esse modelo vai desaparecer completamente. Vai ter bandas, até bandas estabelecidas como a minha, que não terão escolha a não ser tomar esses caminhos para arrecadar dinheiro, porque a gravação é um processo caro. Eu mesmo já investi pessoalmente mais de US$ 50.000 neste disco.

Acho que também é um ótimo jeito de comercializar, traz muita atenção a nosso projeto, as pessoas estão interessadas nele. De um modo raro elas podem fazer parte disso, algo que nunca aconteceu no passado. Não conseguiria imaginar investir num álbum do Led Zeppelin quando era garoto, isso seria um sonho.

Também é um jeito de encomendar antecipadamente um álbum ou mesmo fora da música. Basicamente encomendar para mostrar que existe interesse e você pode ganhar brindes, além depré- encomendar.

Sim, além de ter acesso logo às músicas, o que – vamos encarar – é o que espera a maioria dos fãs que vêm ao Kickstarter, que são meus fãs e estão doando alguma quantia, mesmo que seja 5 dólares, eles provavelmente teriam que comprar a música, de qualquer forma. Mas também é um modo de, as pessoas que gostam de consegui-las de graça, retribuir um pouco, estar envolvido no processo de produzir a música que eles gostam. Porque se elas não gostarem, muitas dessas músicas não serão produzidas mais.

Se o System of a Down estreasse hoje, não sei quem nos contrataria, não sei como lançaríamos nossas músicas. Não tenho certeza se poderíamos arcar em ter uma banda e lançar nosso material. Isso não pode ser de graça e não pode ser ridículo. As gravadoras fazem um preço ridículo e de graça é um preço ridículo. Então tem que ter um meio-termo nisso, uma quantia razoável e justa. O Kickstarter deixa você determinar qual é uma quantia razoável e justa para você.

Na sua página do Kickstarter você mencionou Radiohead, David Bowie e Outkast como artistas dos quais estaria fazendo cover neste projeto, pode revelar algumas músicas específicas que você planeja gravar ou algum outro artista a adicionar e como sua versão da música será?

Nesse momento não quero fazer isso, mas há cerca de 16 músicas que já fiz quase toda a pré-produção e sei estruturalmente como elas serão, sei o que quero alcançar para o produto final. O motivo por não revelar é porque quero mostrar gradualmente 1 ou 2 músicas aqui e ali. Além disso, estava considerando lançar todas as músicas em algum ponto e deixar os fãs decidirem o que querem ouvir. O que mais os interessarem, realmente mantê-los envolvidos e informados e parte do processo de decisão, então é algo que estou considerando acrescentar no meu programa do Kickstarter.

Agora, sem revelar os títulos ou os artistas, o álbum é multigênero ou de rock multi geração? Como um amplo alcance de músicas?

O alcance é bem amplo. É pop, não fiz segredo de que a Madonna é uma das artistas que estou tocando. Tem tudo, desde Neil Young, a David Bowie, a Outkast, na verdade peguei 2 músicas do Outkast e fiz uma combinação. Mas o resultado que estou buscando com isso é que o ouvinte escute-a e que seja uma nova música para eles, mesmo que eles tenham ouvido a versão original. Mas vai haver uma familiaridade que eles poderão identificar. Eles conhecem a música, mas não sabem porque a conhece. Não sou fã de fazer covers que soam exatamente igual à original.

Você mencionou Madonna, que me lembrou de algo. Você já ouviu uma canção pop, mesmo que não faça parte desse álbum, já ouviu uma música pop que pensou ser interessante fazer uma versão rock dela?

Sim, é um dos motivos pelos quais escolhi a música da Madonna. Porque senti que era interessante, que há algo ali que eu acho que funcionaria numa música pop rock. Basicamente porque música pop é só música popular. The Who era pop, os Stones eram pop.

Tudo é melodia pop quando você analisa.

Existe uma diferença entre música pop e música comercial, na minha opinião. Música comercial para mim é quando muitas pessoas vêm e fazem uma música para um certo artista e o artista tem muito pouco a ver com o processo de composição da música, e os artistas são basicamente apenas uma ferramenta de mercado usada para promover a música. Há uma grande diferença entre isso e em alguém escrever uma música que se torna muito popular, independente de seu gênero, e conquistar sucesso. Eu prefiro a última do que a primeira.

Não sou grande fã de outras pessoas virem e escreverem coisas para mim e agir como se fosse minha música e me tornar uma ferramenta de marketing. Não foi por isso que entrei na música. Se alguém quer fazer isso, tudo bem, deve ter suas razões para entrar na música ou é o único jeito que eles conseguiriam e entendo totalmente. Mas há um certo senso de orgulho – agora você está falando com um cara que não escreve músicas a propósito, mas por exemplo, no System of a Down, quando alguém traz uma música, digamos Daron traz uma música, eu sinto um certo senso de orgulho porque é minha banda, ele está escrevendo para nós. Ele é da banda, o que eu posso fazer para contribuir para a música e fazê-la melhor e fazer o melhor trabalho que pudermos para fazer algo especial? Não algo que você vai ouvir por um mês e depois esquecer.

Quando se trata de planos de turnê deste álbum, você poderia imaginá-lo sendo como Kings of Chaos e Camp Freddy, que costumavam fazer muitos shows locais em Los Angeles, então poderia imaginar These Grey Men tornando-se um show estabelecido como aqueles com artistas convidados?

Não exatamente do mesmo jeito desses shows. Não busco que isso seja um projeto corporativo endossado, em que entram diferentes pessoas o tempo todo para fazer jams e tocar ao vivo, na verdade quero estabelecer uma banda que no futuro possa fazer coisas originais. Estou fazendo covers, mas não significa que se fizermos um segundo álbum seria de covers. O primeiro álbum é de covers porque não escrevi nenhuma música, nem James trouxe nenhuma música na qual trabalhamos que fará parte do álbum. Mas imagino que em algum momento isso se tornará algo em que será material original. Tipo o que os Beatles e Stones fizeram, eles tocavam muitos covers no começo da carreira e aos poucos se transformou em originais e depois tudo era original. Só que nós não vamos ser tão bons quanto eles [risos].

Teve que incluir isso para que ninguém interpretasse mal o que você disse!

Sim, os Beatles e os Stones estão num pedestal que muito poucas pessoas terão esperança de alcançar. Mas o que estou dizendo é que eles começaram com a mesma ideia, algo os inspirou, eles pegaram as músicas e as reimaginaram do jeito deles e depois pegaram essa inspiração e disso criaram suas próprias coisas, então cresceram a partir daí.

Muitas composições são feitas desse jeito, tipo vi você mencionar na sua página do Kickstarter que ouve músicas no rádio e pensa em reinterpretá-las, é assim que muitas músicas originais acabam sendo escritas. Mesmo aquelas que não são necessariamente cópias, você tem uma influência de algumas músicas, e pensa onde iria com uma melodia como aquela. Então acho que é um boa questão.

Depois que você escutar esse projeto finalizado poderia pensar que eu escrevi essas músicas, porque elas estão tão diferentes das originais que parecem ter sido reescritas. Mas são completamente inspiradas nos criadores originais das músicas. Me ensinaram muito e no futuro, se eu acabar escrevendo algumas músicas com James ou outra pessoa, aprendi muito desse processo de pegar ótimas músicas e dissecá-las, transformá-las e fazer algo completamente diferente e prosseguir a partir dali.

Quando você está em turnê com o System of a Down, como se prepara para os shows? Porque li uma frase quando pesquisava em que você disse há um tempo que toca melhor quando está zangado. Isso mudou durante os anos ou ainda é do mesmo jeito?

Bom, eu só não fico tão zangado com tanta frequência. Existem cada vez menos coisas para se ficar com raiva. Estamos sempre uma banda honrada. Sempre subimos no palco na hora, terminamos nosso set na hora, fazemos tudo que podemos para favorecer as outras bandas, nos certificamos de tirar nosso equipamento rapidamente. Tentamos fazer uma apresentação tão clássica quanto possível. Esse nem sempre foi o caso com outras bandas que tocou nos mesmos eventos e isso o que queria dizer por “ficar zangado”. É que se eu sentisse que estávamos sendo desrespeitados por alguém, eu descontava neles. Porque uma vez que saíamos no palco, eles eram algo em que não havíamos pensado.

Quando se trata do futuro do System of a Down, perguntei aos fãs e 90% deles questionaram a mesma coisa, então tenho que perguntar. Qual o próximo passo para o System of a Down? Quando você acha que haverá um próximo álbum e sei que enquanto os outros caras são os compositores principais, você pensou em como queria que o som ou as letras fossem, especialmente com todo o tempo que passou?

Na verdade perguntei onde que as mentes deles estavam , onde iriam musicalmente. Porque é importante para mim saber disso, então eu posso pesquisar um pouco ou nas bandas que estiverem os inspirando na época para que eu possa ficar na mesma vibe ou mesmo talvez ouvir um pouco do material. Mas ainda não ouvi nenhuma música, com exceção de algumas aqui e ali, na qual eu poderia começar a direcionar minha bateria no futuro.

A outra pergunta, sobre quando faremos algo, seu palpite é igual ao meu. Estou numa banda de quarto indivíduos únicos, eles são excêntricos às vezes, são artistas. Todos os artistas são um pouco singulares eu acho, e eles farão as coisas no tempo deles, do modo que funcionar para eles, eu acho. Não poderia te dizer, é por isso que estou fazendo esse álbum, porque não tenho vontade de esperar. Eu quero fazer música, quero contribuir artisticamente e não tenho feito isso desde 2008, então não quero esperar mais. Mesmo se o System decidir que amanhã começaremos a trabalhar num álbum, eu ainda completaria este álbum primeiro.

Há 5 anos você tocou com Billy Corgan por um tempo e foi muito falado que você poderia entrar para o Smashing Pumpkins. Como foi tocar com Billy e por que você acha que não deu certo?

Não sei ao certo. Acho que foi Rick Rubin que me ligou e disse que Billy precisava de um baterista. Então eu disse: “Ok, bom, ele tinha um dos melhores bateristas dos últimos 30 anos, por que precisaria de baterista?”. Mas eu disse que tentaria. Eu nem estava tocando tanto naquela época, mas respeito o Billy e respeito o Smashing Pumpkins. Então disse que tentaria, talvez possamos criar algo novo que não seja Smashing Pumpkins e desenvolver algo daí. Havia outros bateristas, tinha múltiplos estúdios. Não foi exatamente o que eu tinha previsto, não trabalho daquele jeito. Tenho que ter interação cara a cara com o compositor, tenho que ouvir onde ele vai com as músicas para que eu possa produzir algo feito sob medida para as músicas, dando o melhor de minhas habilidades. Então não era a situação ideal, não sei se foi uma interpretação equivocada da minha parte ou o que foi. Mas não foi exatamente uma experiência positiva para mim, tocamos por alguns minutos e foi isso. Ele foi ver o próximo, nunca ouvi o outro cara tocar mas soube que ele é um baterista muito bom.

Billy o demitiu uma ou duas semanas atrás, na verdade.

Bom, é o que é. Acho que Billy provavelmente deveria voltar com os membros originais e deixar de lado quaisquer problemas que tiver com eles. Porque foi com eles que ele esteve em sua melhor forma e são uma ótima banda. É um conselho que eu daria se ele me ligasse hoje e me pedisse pra tocar com ele.

Sim, Jimmy é um ótimo baterista.

Sim, não dá pra ficar melhor do que com ele. Sou um bom baterista, ele é um bom baterista, somos bem diferentes. Mas ele é o melhor para o Smashing Pumpkins.

Estava olhando seu Facebook e vi um post interessante que você fez no início desse ano comparando Electro Dance Music à disco e querendo que ela acabasse e Chris Cornell basicamente disse a mesma coisa semana passada, o que achei bem interessante.

É, eu o ouvi no programa do Howard Stern. Eu disse: “putz, agora as pessoas vão pensar que eu o copiei!”.

Você falou primeiro!

Tenho dito isso há anos, não tenho certeza se falei primeiro. Acho que muitas pessoas estão tendo o mesmo pensamento.

Ah sim, definitivamente.

Não estou falando das pessoas que criam a música. Falo sobre a noção idiota de ir a um festival, onde são as mesmas 8 ou 10 ou 20 músicas tocadas em todos os shows. Pode imaginar ir a um festival de rock e ver todas as bandas tocarem Black Sabbath?

De jeito nenhum.

Não, você não perderia seu tempo. Acho que tenho uma boa ideia do por que as pessoas vão nesses festivais, elas estão se drogando até o talo. Dançam e se divertem e acho que é bom pra eles se é isso o que querem fazer. Mas também vejo um retrocesso começando e vai ser do mesmo jeito que foi com a disco, na minha opinião. Disco music era bem popular, não sei se as pessoas esquecem que a história tende a se repetir. Mas a disco era bem popular até morrer e quando morreu foi devastador, mas as cinzas da disco foi o renascimento do rock de modos diferentes. Tinha new wave emergindo enquanto a disco estava acabando, tinha as o rock dos anos 80 que foi transferido para o rock dos anos 90, então transferido de novo. Tem de tudo, desde Duran Duran até Tool, sendo lançado nos 20 anos após a morte da disco music. E, a propósito, eu gosto de disco. O System of a Down é disco de várias formas. Mas quando se toca sem parar e tem tipo quatro comerciais com Eletronic Dance Music e tudo o mais. A próxima geração vai olhar isso e dizer: isso não é pra mim. O que tem pra mim? Tem que haver algo que venha e tome esse lugar.

Tenho 22 anos e não consigo imaginar as pessoas de minha idade ainda escutando isso aos 30 anos. Aos 30 eles largarão as drogas ou talvez ainda estejam se drogando, não sei.

Moro em Las Vegas, vejo pessoas vestidas pior de que com fantasias de Halloween, a maioria garotas. Elas parecem completas idiotas, tenho que te dizer.

Concordo.

E eu tenho amigos que fazem isso!

Eu também.

Mas, de novo, elas não estão fazendo mal a ninguém, estão se divertindo. Talvez estejam fazendo mal a elas mesmas, em alguns casos, quando não estão tomando cuidado com o uso de drogas. Os fãs estão dançando, é o que é. Se eles querem ouvir “tocar”, entre aspas, a mesma música várias vezes por DJs diferentes, é problema deles. Se eles querem pagar 200 dólares pra ter esse privilégio, podem fazer isso. Mas te digo que o retrocesso vai acontecer e não vai demorar. Não estou dizendo que é certo ou errado, só estou dizendo que vai acontecer. Então sei como as pessoas vão me olhar, sei como serei olhado por dizer isso pelas pessoas que curtem isso.

Sim, eu concordo 100% com o que você diz. Mas o rock vai ter que derrubar a comunidade hipster também, além da Eletronic Dance Music.

Bom, que se danem eles. Eles sempre me irritaram, desde quando eram hippies. Só estão mais limpos agora. Mas, de novo, o que quer que eles façam, está tudo bem! Se você tem que se associar a algum tipo de grupo social para sentir que pertence a algo, então tudo bem. Para mim essa é mentalidade de gangue e não gosto de mentalidade de gangues. Acho que se você precisa estar numa gangue, você tem mente fraca. Sei que vai soar estranho vindo de mim agora, por causa do jeito falo pareço mente fechada. Se você precisa destruir outras coisas para se sentir bem consigo mesmo, você tem problema. Então ouço Daft Punk como se fosse minha religião. Adoro o último álbum, acho que esgotei-o no meu carro por 8 meses. Isso é Eletronic Dance Music, mas é ótimo. Então se é ótimo para mim, não importa que gênero seja. A única coisa que não entendo é ir a um concerto onde estão tocando a mesma música por 3 dias e agindo como se fizesse diferença que DJ está no palco. Se você pensa que pode tocar num show com seu iPhone ou algum tipo de pendrive ou algo assim, não tenho certeza de que você seja músico.

Certo, para mim a diferença é mesmo que não seja uma música que curto, mas se um artista de Eletronic Dance Music escreve uma música num teclado, eu respeito.

Aí é bem diferente.

Mas se eles apenas estão apertando botões, há uma imensa diferença.

Não tenho 100% de certeza de que ao apertar um botão no palco se está fazendo algo, não é 100% de certeza. Não estou dizendo que sei muito sobre isso, o que estou dizendo é que questiono isso, porque já vi DJs. Eu moro em Vegas, vejo DJs o tempo todo e os vejo fazendo pausas de 20 minutos, pausas para banheiro ou para falar com algumas garotas ao lado do palco e não noto diferença nenhuma.

Concordo porque vejo pessoas fazendo isso em seus computadores e elas transformam um pequeno loop numa coisa de 3 minutos.

Certo. Os dias originais, quando as pessoas estavam girando discos e elas tinham que combinar discos, estavam basicamente usando plataformas giratórias, aquilo para mim é uma forma de arte. Ainda que não estejam criando música, mas ainda é artístico. Existe algum talento envolvido nisso, não tenho certeza se o mesmo talento é necessário na Eletronic Dance Music. Para mim, é apenas marketing. É por isso que digo que vai morrer a mesma morte da disco e provavelmente é por isso que Chris Cornell olha para isso da mesma forma. Veremos o que acontece, se tiver que acontecer, vai acontecer nos próximos dois anos.

Concordo. Bom, espero que seja um grito de guerra para as pessoas da minha idade.

De novo, se você curte, ótimo. Se você curte os artistas que criam, ótimo. O que você quiser fazer com seu tempo e dinheiro é só da sua conta, mas um dos motivos pelos quais as bandas têm que procurar por caminhos alternativos de arcar as coisas é por causa do nível de interesse está baixo nesse momento para esse gênero de música.

As gravadoras não estão dispostas a se arriscarem. Discuti com alguém sobre isso recentemente, elas não estão dispostas a se arriscar por nada que soe diferente.

Elas não podem arcar com isso.

Acho que se uma banda logo escrevesse um hit pop, ainda poderiam ter sucesso, mas não é toda banda, não é toda banda boa. Muitas bandas levam alguns álbuns para chegar lá e é um grande desafio.

Se o System of a Down lançasse um álbum no próximo ano, o álbum iria bem. Não alcançaria os números do passado, mas iria bem e a gravadora investiria. Mas se o System of a Down tivesse que ser lançado agora, não tenho certeza se alguma gravadora se interessaria em investir nele, porque é uma aposta para eles. Elas estão no negócio de fazer dinheiro, não de fazer discos. E, aliás, parte do problema é que elas são grandes demais, essas gravadoras.

Há apenas duas grandes empresas agora controlando tudo.

Elas são grandes demais. Nem vou falar na estrutura corporativa nos Estados Unidos, mas sempre que se tem algumas poucas empresas responsáveis por tudo, você tem um problema.

Um monopólio.

Temos leis destinadas a impedir a formação de monopólios e proteger o mercado livre para prevenir isso, mas o argumento deles é que existem duas empresas. As pessoas têm uma opção. Mas antes havia centenas de opções. Lembro dos velhos tempos, eu comprava todos os álbum que saía por certas gravadoras, porque sabia que elas iam lançar ótimas músicas. Você compraria todos os álbuns lançados pela Sony?

Não.

Eu também não e tenho contrato com eles.

Mas se você voltar aos anos 90, tinha o Sub Pop e as pessoas compravam tudo desse selo e SST.

É o que estou dizendo, selos como esse. Simplesmente não é mais como as coisas funcionam e tudo bem, você tem que lidar com isso. Ninguém está comprando vitrolas por uma razão, eles têm CD players agora. Você tem que ir de acordo com a época, não dá para ficar preso no que era, você tem que ser realista sobre isso.

Mas como você disse o retrocesso da EDM está vindo dos próximos anos, então tomara que venham tempos brilhantes à frente.

Sim, quer dizer, olha, eu vou a clubes e caio na risada. Você tem que ver a atitude de alguns desses DJs, como se estivessem fazendo algo magnífico. Sente-se numa bateria se você é tão magnífico, veja o que você pode fazer ali. Porque eu posso quase garantir que se você me der alguns anos, eu posso descobrir como ser um DJ tão bom quanto eles, muitos deles.

Acho que um exemplo perfeito é: eu estive na casa de alguém, eles estão apertando botão naquela coisa de DJ e vi uma bateria acumulando poeira e fiquei impressionado.

A diferença é que um instrumento de verdade leva tempo, de verdade, não estou falando de um ano ou 6 meses, estou falando de décadas para adquirir habilidade. As pessoas não investem em tempo. Pense na diferença entre ver pornô agora e há 15 anos. Há 20 anos eles costumavam fazer filmes, o enredo era horrível, mas havia enredos, desenvolvimento da trama, atuação pobre e o que fosse. Era risível, mas eles tentavam. Agora não demora nem um minuto e meio para acontecer, e isso é no pornô. Então para alguém pegar um instrumento e dizer: “ok, não sou bom nisso em uma semana. Estou entediado agora, o que mais?”.

Vi um comercial na TV que literalmente quase me fez vomitar. Era um cara num cenário urbano, devia ser Nova York ou algo assim, sabe esses artistas de rua que costumavam tocar com potes e panelas, diferentes instrumentos? Esse cara tinha um iPad como seu instrumento. Ele ficava passando o dedo na tela e dançando como se estivesse fazendo alguma coisa. Enquanto que você pode simplesmente programá-lo para tocar o que você quiser, você poderia apertar o botão de desligar acidentalmente, mas fora isso não havia nenhum esforço naquilo e me deixou enjoado. Se as pessoas pensam que aquilo é um instrumento musical, estão enganadas. Você  pode programar algo, existe programação de bateria há 30 anos, isso não tirou a necessidade de se ter um baterista, porque você não pode programar sentimento. Dê uma olhada nesse comercial, sinceramente, é horrível.

Tenho certeza que já vi. Vi os de corte de cabelo que mostram o DJ glorificando toda a cultura onde costumava mostrar um rock star.

Sim, mas aquele realmente me deixou enjoado. Porque tem um cara dançando como um tolo e garotos vendo isso, dizendo: “Uau, quero fazer isso, isso eu posso fazer”. Qualquer um pode comprar um iPad e baixar algum programa e achar que está criando algo, mas não tenho certeza se isso é música.

O que você precisa fazer é: se você tem um iPad ou iPhone, vá no negócio de Voice Memo, clique em gravar, pegue sua guitarra e comece a tocar. É assim que se faz, não crie porcaria ali, use-o para gravar material de verdade. É assim que vejo.

Certo, quer dizer, a tecnologia está aí para nos beneficiarmos dela e fazer coisas incríveis com ela, mas não vamos fingir que ela substitui a arte.

São coisas completamente diferentes e uma não deveria ser vista como igual à outra com méritos artísticos.

Não posso evitar de sentir como se fosse um velho artista extravagante que não acompanha a época, mas o principal é: eu tenho toda a tecnologia conhecida aos homem disponível para mim e utilizo quase toda ela, mas passei quase 20 anos aperfeiçoando minha arte.

Bom, você não está tão longe, porque tenho 22 anos e concordo com você.

E, aliás, quando os jovens de 22 anos começarem a pensar dessa forma, você sabe que o fim está próximo.

3 Comentários

  • leonardo Lop

    John, todo a su tiempo amigo, todo a su tiempo 🙂

  • Eduardo

    Belas opiniões do John ^^ realmente tem muito famosinho aí que acha que faz algo artístico

  • Gustavo Gabriel

    Muito grande a entrevista cara,mas estou curioso,terei que ler com calma.