Serj Tankian fala sobre sua vida como compositor orquestral

Serj Tankian (solo)

Los Angeles Times | 06 de novembro de 2016.

O “pequeno incidente”, como Serj Tankian se refere, ocorreu há mais de seis anos em Atlanta. A estrela do rock e líder da popular banda de heavy metal System of a Down havia se apresentado em carreira solo e decidiu executar suas músicas de rock e de estilo clássico com a Orquestra Sinfônica de Atlanta.

Ele tinha feito isso com êxito com a Orquestra Sinfônica de Auckland no ano anterior na Nova Zelândia, então o cantor raciocinou: por que não realizar o ato nos Estados Unidos? O problema crucial era que seu único ensaio com a orquestra havia sido uma simples passagem de som. O concerto que se seguiu foi um desastre.

“Pessoas bêbadas com suas cervejas estavam batendo no palco enquanto o solo de violino estava acontecendo”, lembra Tankian com um sorriso malicioso. “Eu não podia sequer virar.”

Tankian se lembra de seu pianista olhando para ele de canto de olho e dizendo a palavra “uncivilized”, repetidamente.

A experiência fez Tankian não querer executar novamente sua performance clássica nos Estados Unidos. Até hoje. Tankian irá se apresentar nos dias 10 e 12 de novembro no Valley Performing Arts Center, no campus da California State University. Ele estará acompanhado pela Orquestra Sinfônica CSUN na estreia norte-americana de suas sinfonias “Elect the Dead” e “Orca”.

Tankian, que vive nas proximidades de Calabasas (Califórnia) e foi um aluno da California State University, sente-se confiante com esta apresentação nos EUA, porque, ao contrário de Atlanta, ele teve muito tempo de ensaio com a orquestra antes dos shows. Ele também aprimorou esse material ao atuar em mais de duas dúzias de vezes na Europa, incluindo concertos com a Orquestra Sinfônica Nacional Checa e com a Orquestra Bruckner Linz da Áustria.

“Tive um tempo muito mais fácil interpretando música clássica na Europa”, diz Tankian, porque é muito menos caro. Na Europa, as orquestras tendem a ter seus próprios espaços de ensaio, enquanto nos Estados Unidos algumas orquestras têm que pagar, então o tempo de ensaio pode ser proibitivo. Atuar com uma orquestra universitária resolveu esse problema, e por essa razão, esta pode ser a fórmula que Tankian usará se ele continuar percorrendo os Estados Unidos com esse material.

Tankian é uma estrela de música clássica improvável. Alto e bronzeado, com um cavanhaque saliente grisalho e um vocabulário alegremente interligado com profanidade, o roqueiro é uma figura amada no mundo do heavy metal. System of a Down, formado em Glendale em 1994, vendeu mais de 40 milhões de discos em todo o mundo.

Fazer a ponte entre os fãs de System e os fãs de música clássica foi um truque à parte para Tankian. Ele facilitou a ideia, transformando seu primeiro disco solo, “Elect The Dead” de 2007, em uma sinfonia em que ele canta. Seus fãs já sabiam das músicas, então eles estavam dispostos a vir juntos ao longo do percurso. Alguns fãs de música clássica tradicional estavam interessados porque parecia romântico e novo.

As orquestras com as quais ele toca parecem apreciar a mudança de ritmo também.

“Dia e noite eles estão tocando Wagner (maestro e compositor), e isso é legal, mas eles esquecem sobre a genielidade desses compositores, porque quando você toca algo todos os dias chega um ponto de repetição onde tudo se parece artisticamente redundante”, diz Tankian.

Esse momento de redundância aconteceu também para Tankian, razão pela qual ele expandiu seu repertório para incluir composições clássicas. Ele diz que está mais interessado no crescimento do que na situação financeira confortável, não importa o quão rentável seja.

“Há sutilezas e vulnerabilidades emocionais que eu nunca tinha sido capaz de expressar em minhas músicas até que eu comecei a usar elementos clássicos”, ele diz. “Eu não estava gravando por sucesso comercial ou uma música na rádio.”

Tankian não é um cara da teoria da música – ele não lê nem escreve música – por isso, um arranjador o ajuda a transformar sua visão em realidade. Tankian diz que está se tornando mais fluente na linguagem, e nestes dias ele passa muito do seu tempo compondo para cinema e TV, transformando suas músicas de rock, músicas experimentais e clássicas em partes iguais.

Surpreendentemente, o homem conhecido por um alcance vocal de mais de quatro oitavas, nem sempre soube que a música era sua vocação. Ele se formou em negócios na California State Northridge no final da década de 80, trabalhou com seu tio no Distrito de Jóias no centro de Los Angeles e fez aulas de direito em Kaplan, Long Beach, antes de ter um momento de verdade.

Ele estava dirigindo para casa um dia. Estava desconfortável estudando direito; Outros estudantes pareciam realmente animados, e ele simplesmente não conseguia igualar seu entusiasmo. Então, neste dia em particular, ele literalmente pisou em seus freios e derrapou até parar. Ele bateu no painel com a palma da mão e gritou em uma linguagem mais pitoresca do que a citada aqui: “Eu não quero ser advogado! Eu quero fazer música!”

“Eu tive que chegar em meus limites exteriores, de quem eu não deveria ser, até finalmente ser homem e dizer: Isto é o que eu quero fazer!”, diz Tankian.

Agora, o sucesso do System of a Down deu-lhe a liberdade para alcançar outro desafio: expandir o mundo clássico a um público maior.

“Eu acho que provavelmente 95% do público será de seus fãs, se não mais do que isso”, disse John Roscigno, diretor da CSUN Symphony, sobre os próximos shows no local com 1.700 lugares. “Tenho certeza de que a maioria deles nunca ouviu nossa orquestra universitária, e eu acho que muitos nunca ouviram uma orquestra ao vivo.”

Roscigno acrescenta que seus músicos, a maioria dos quais são adultos que variam de 18 a 30 anos, estão particularmente animados para colaborar com Tankian. Os ensaios de sinfonia são razoavelmente padronizados, ele diz, mas as partes do “Elect the Dead”, baseadas em rock ‘n’ roll, embora tecnicamente mais fáceis, exigem algumas partes ritmicamente complicadas, em que os músicos precisam tocar com total precisão.

Thor Steingraber, que supervisiona a programação como diretor executivo do Valley Performing Arts Center, aponta outro casamento feliz dos lugares: Los Angeles é um lugar incomum para ‘book shows’ porque a metrópole é possuída de uma mentalidade de entretenimento, ele diz, sendo também uma cidade ascendente das artes e cultura.

“Serj é um frontman, mas também é um artista”, diz Steingraber. “Lance a sinfonia e você estará vivendo nesta interseção realmente legal.”

Também nesta interseção, estará uma exposição de pinturas de Tankian no segundo andar do centro de artes. Ele marcou cada pintura com uma música. Os fones de ouvido serão distribuídos aos visitantes para que eles possam ouvir a pintura.

“Explorar um reino diferente da arte me transformou naquele jovem artista louco novamente: ‘Eu não sei mais o que estou fazendo!'”, diz Tankian.

As apresentações de Serj Tankian junto com a Orquestra Sinfônica CSUN irão ocorrer nos próximos dias 10 (quinta-feira) e 12 (sábado) no Valley Performing Arts Center, em Northridge, Califórnia.

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