O texto censurado de Serj Tankian após os atentados terroristas de 11 de setembro

Ameaças de morte, retirada das músicas do System of a Down em dezenas de playlists das rádios americanas e lista negra. A polêmica e profética carta intitulada ‘Entendendo o petróleo’ escrita por Serj Tankian na seção de Ações Globais no site oficial do SOAD, dois dias após os atentados ao World Trade Center e ao Pentágono em 11 de setembro de 2001, uma publicação que antecipou a evolução iminente de uma máquina militar-industrial e de uma futura década de insensatez.

A CARTA:

– Entendendo o petróleo
Por Serj Tankian
13 de setembro de 2001

Os brutais atentados e bombardeios desta semana em Nova York e em Washington D.C., juntamente com as ameaças de ataques por lá e em outros locais do país, mudaram nossos rumos para sempre. Enquanto a grande mídia se concentra nos detalhes da destruição e nas palavras concedidas em coletivas pelos políticos, tentarei entender e explicar os ocorridos. Bombardear e ser bombardeado são as mesmas coisas em diferentes perspectivas.

Terrorismo não é uma ação humana espontânea sem nenhum motivo. Pessoas não sequestram aviões e cometem suicídio sem nenhuma noção do peso de suas ações. Ninguém na mídia se propôs a perguntar: Por que essas pessoas fizeram este horrível ato de violência e destruição?

Para entender a resposta, precisamos primeiro analisar a nossa U.S. Mideast Policy [Política externa dos EUA para o Oriente Médio]. Durante a maior parte do século XX, empresas dos EUA trabalharam na obtenção de direitos e concessões de petróleo de países do Oriente Médio e da Europa Oriental. Depois da Primeira Guerra Mundial, os acordos secretos do nosso Departamento de Estado renderam direitos petrolíferos da então derrotada Turquia a áreas nas quais hoje são o Iraque e a Arábia Saudita, em troca de vista grossa a um crime contra a humanidade, o genocídio dos armênios perpetrado pelos turcos. Os lucros do petróleo têm sido os fatores motivacionais de muitas tentativas de contrainsurgência de regimes democráticos pela CIA e pelos EUA no Oriente Médio (como o Irã na década de 1950, onde o Shah [Mohammad Reza Pahlavi] substituiu o primeiro-ministro que se recusou a renunciar aos direitos petrolíferos nos EUA. Como o povo não pôde reivindicar o Shah, prevaleceu um governo extremista liderado por Ruhollah Khomeini). Durante a Guerra Irã-Iraque, os Estados Unidos forneceram armas e informações a ambos os lados. Isto não são as ações de uma superpotência rica em busca da paz. Não podemos esquecer que Saddam Hussein, antes de ser a visão do Anticristo nas Américas, era um aliado próximo dos EUA e da CIA. Então, qual dos consecutivos sistemas administrativos da América causaram tudo isso? A paz no Oriente Médio resultaria em preços mais elevados do petróleo e da gasolina. Também não podemos esquecer o poder da indústria bélica, usando a defesa como disfarce, que ainda vende bilhões de dólares em armas em toda extensão. Portanto, a curto prazo, não tem sido do interesse econômico dos EUA promover a paz no Oriente Médio. Usando o raciocínio acima, os EUA encorajaram governos extremistas, derrubaram democracias, como no caso do Irã onde a monarquia foi instalada, fraudaram eleições e muitos outros crimes políticos indescritíveis de empresas americanas no exterior. Também não podemos esquecer o Red Scare [Ameaça vermelha nos Estados Unidos]. Durante a guerra entre a então União Soviética e o Afeganistão, os EUA armaram e apoiaram o Talibã, uma organização fundamentalista muçulmana, e permitiram que exportassem ópio e heroína para fora do país para o financiamento de armamentos. Desta forma, o Talibã cresceu em seu poder de controle com a ajuda do USA Today [jornal americano], o bombardeio no Iraque ainda continua, porém, sem a devida cobertura da mídia, o embargo econômico ainda permanece, matando milhões de crianças e, recentemente, enquanto o mundo e a UNGA [Assembleia Geral das Nações Unidas] clamam para levar forças de paz para Israel e Palestina, para acabar com a escalada da guerra e recentes assassinatos, os EUA vetam o UNSC [Conselho de Segurança das Nações Unidas], suspendendo assim a possibilidade de paz por lá, no lugar mais instável do mundo.

Nem sempre as pessoas na Sérvia, Líbano, Iraque, Sudão e Afeganistão veem bombas caindo em alvos militares, elas veem também a morte de civis inocentes, como nos ocorridos de ontem em Nova York. As assumidas guerras travadas pelo nosso governo aterrissaram bem no meio da nossa sala de estar. A meia hora de destruição fechou todos os mercados financeiros do mundo, atingiu a sede central de nossos militares, nossos líderes entraram em bunkers [esconderijos subterrâneos] e nossos cidadãos ficaram em estado de choque. O que me assusta mais ainda do que os ocorridos, é a reação que essas ocorrências podem causar. O presidente Bush pertence a uma grande geração de Presidentes Republicanos que amam as economias de guerra. A mídia está concentrada somente nos bombardeios, à espera de uma retaliação, e o tipo de retaliação que será feita contra os agressores. O que ninguém entende é que os bombardeios são uma reação contra todas essas injustiças ao redor do mundo, geralmente não vista pela maioria dos americanos. Reagir a uma reação só traz outra reação, o terror vai multiplicar se passos concretos não forem dados para guiar o Oriente Médio à paz agora! Isto não significa que nós não devemos procurar e achar os responsáveis, como Bin Laden, ou quem possa ter feito isso. Simplificando, se as grandes injustiças continuarem, a violência irá persistir na superfície da vida.

As profecias dos nativos americanos, da Bíblia, Nostradamus e muitas outras significativas crenças religiosas apontaram potenciais desastres para esta época, como os que ocorreram ontem, junto com as catástrofes ecológicas que vivenciamos diariamente em nossas vidas nos dias atuais. Guerras e rumores de guerras, fome, incêndios prologados estão batendo à nossa porta. Podemos previnir tudo isso com o poder do espírito humano, com compreensão, compaixão e paz. É tempo de alcançar nossas necessidades de segurança e sobrevivência, somente através da paz, acima e além dos lucros, especialmente nestes tempos.

Solução:

Os EUA deveriam parar de se esquivar do Conselho de Segurança da ONU e permitir que as UNPK [Forças de manutenção da paz das Nações Unidas] cheguem ao Oriente Médio. Dar um ponto final na violência em primeiro lugar.

Parar os bombardeios e a patrulha no Iraque.

Atualmente, com as vantagens no uso de combustíveis não convencionais, desenvolver formas de utilizá-los em automóveis e outros utilitários de forma completa, tornando assim o país menos dependente de uma reserva natural já exaurida, a do petróleo.

Iniciando um processo de paz, já abalaríamos as estruturas das bases de suporte a Bin Laden, e/ou todos aqueles que patrocinam atividades como as que vimos ontem, quebrando a fortaleza de extremistas no mundo do Islã. Por outro lado, se carregarmos bombas para o Afeganistão ou qualquer outro lugar para matar a sede (de sangue) do público, e com certeza matar civis inocentes no caminho, estaremos criando vários mártires de encontro à morte em retaliação contra a retaliação. Como foi visto nesses recentes eventos, você não pode parar uma pessoa que está pronta para morrer.


CENSURA:

Depois que dezenas de canais de comunicação alegaram que Serj utilizou palavras controversas e infundadas para justificar os atentados de 11/09/2001, a Sony Music Entertainment – gerenciadora do System of a Down na época – retirou o texto do site oficial da banda horas depois da publicação.

Após os ocorridos, a faixa ‘Chop Suey!’, do álbum Toxicity, foi retirada das playlists das rádios locais por determinação da Clear Channel, empresa de meios de comunicação em massa norte-americana. Na visão da companhia, o tema da música se enquadrava em assuntos violentos que acabavam de certa forma “interligando” com os atentados.


TRÉPLICA:

Cinco dias depois, em 18 de setembro de 2001, Serj divulgou uma nova nota no site oficial do System of a Down se explicando sobre as declarações anteriores. Leia a publicação:

Todos nós estamos impactados com os terríveis acontecimentos em Nova York e em Washington D.C. Eu tenho ligado para amigos durante toda a semana para ter certeza de que eles estão bem. Meus sentimentos a todas as famílias que estão sofrendo por conta dessas atrocidades.

Como cidadãos americanos, estamos em uma posição privilegiada para poder abrir nossos corações, mesmo que haja discordância entre algumas pessoas. Eu valorizo muito o fato de ter a liberdade para fazer uma declaração com a intenção de propagar a paz e a compreensão sobre os trágicos ocorrridos que se desdobraram. Eu peço apenas que, para a sobrevivência a longo prazo do nosso planeta, todos se concentrem em busca de energias positivas em nossas vidas enquanto buscamos a justiça.

Eu não estaria vivo se não fosse pelos orfanatos americanos que abrigaram meu avô depois do Genocídio Armênio em 1915, então eu tenho muito amor e respeito pelas coisas boas que a América tem e pode continuar alcançando.

Serj Tankian,
System of a Down.


AMEAÇAS:

Em 19 de março de 2008, durante um bate-papo com o jornalista Michael Roberts, Serj Tankian explicou sobre a censura e as ameaças que o System of a Down sofreu depois da nota publicada após os atentados.

Escrevi “Entendendo o petróleo” no site do SOAD sem a participação dos demais integrantes da banda (fiz de forma individual, como parte das postagens na seção de Iniciativas de Ações Globais onde focávamos em eventos mundiais). Sendo honesto, acabei concordando com a retirada do texto, mas não por causa da Sony. Nós não fomos forçados por eles, e sim pela pura negatividade e ameaças impostas à minha banda e aos membros. Uma coisa é ser responsável por si mesmo, mas é muito mais difícil quando envolve os outros integrantes. Compreensivelmente, havia uma quantidade imensa de reacionismo predominando na América depois do 11 de setembro. No entanto, o fato disso ter acrescentado para que a Clear Channel e outras companhias censurassem algumas músicas foi muito antidemocrático e ofensivo. Digo porque a ‘Lucy in the Sky With Diamonds’ dos Beatles também foi retirada das playlists. Isso é uma loucura. É o que acontece quando você permite que a mídia em seu país atinja níveis quase monopolistas de darwinismo corporativo através da consolidação desregulamentada. Foi o mais próximo que já me senti dos anos 50, quando o macartismo assustou a todos. E o problema real era a própria mídia não ter ensinado corretamente aos nossos cidadãos sobre as verdades de nossa política externa, passada e atual, e como alguns desses ocorridos poderiam ter sido evitados e tratados de forma mais justa. E o que aconteceu depois? Toda a boa vontade das outras nações e expressões populares foram higienizadas (por novos vocabulários). Nenhuma surpresa. As pessoas agora me param e dizem: “ei, você estava certo em ‘Entendendo o petróleo'”, e eu falo para elas não se preocuparem. Estamos em várias guerras injustas, pagando o preço por isso.


Referências
www.systemofadown.com
www.westword.com
www.edition.cnn.com
Kerrang! Magazine

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