Há um ano, System Of A Down lançava os singles ‘Protect The Land’ e ‘Genocidal Humanoidz’

Foram 15 longos anos sem que o System Of A Down lançasse uma música inédita. O dia 6 de novembro de 2020 está marcado no coração de todo o fã da banda, enfim a espera acabara.

Um ano atrás o SOAD apresentava ao mundo as faixas ‘Protect The Land’ e ‘Genocidal Humanoidz’, ambas carregando uma importante temática que envolve pessoalmente todos os integrantes.

Os singles foram lançados por motivos amplamente necessários: conscientização global e o auxílio aos afetados no conflito étnico-territorial na província de Nagorno-Karabakh (também chamada de Artsakh), região povoada em sua maioria por armênios nativos.

“Eu estava em casa, na Nova Zelândia, e já lidando com o ativismo relacionado ao esforço de guerra em termos de conscientização e arrecadação de fundos. E nós, os quatro membros da banda, estávamos em contato sobre ter o System ajudando a disseminar essa informação, algo que nós fizemos. E então o baterista John Dolmayan nos chamou e disse: ‘Escutem, pessoal, eu sei que não estivemos no estúdio lançando músicas em tantos anos. Acho que seria vital fazer algo por nosso povo. O que vocês acham?’, e todos concordamos imediatamente. E aconteceu que Daron tinha uma música que ele havia escrito sobre os soldados que defendem a terra, que defendem suas famílias em Artsakh especificamente. Então ele reproduziu para nós, nos enviou a música, e nós ouvimos. Fez todo o sentido; a letra estava no gatilho. E então comecei a trabalhar em algumas harmonias e outras coisas no meu estúdio na Nova Zelândia e enviei para ele. Daron também tinha outra música que ele havia escrito antes, ele queria que o System fizesse, algo que acabou não acontecendo. No início, eu estava pensando que estávamos fazendo uma música, mas depois se transformou em duas, o que é bom. Mas tudo foi feito em, tipo, três dias no estúdio”, contou Serj Tankian à Hawaii Public Radio.

Os impactos dos ataques coordenados pelo Azerbaijão (com apoio material turco) aos armênios nativos na região de Nagorno-Karabakh foram trágicos. Milhares de soldados e civis foram mortos e outras dezenas de milhares de pessoas ficaram feridas e foram desabrigadas.

100% das receitas de ambas as músicas lançadas foram destinadas ao desenvolvimento humanitário em regiões afetadas pelos conflitos na Armênia e também para a reabilitação de soldados que tiveram seus membros amputados. A banda arrecadou mais de 600 mil dólares (cerca de 3,2 milhões de reais).


A construção

‘Protect The Land’ foi composta pelo guitarrista Daron Malakian como plano inicial de fazer parte do novo álbum do Scars On Broadway, sua banda paralela. ‘Genocidal Humanoidz’ foi composta em meados de 2016, quando Daron, Shavo Odadjian e John Dolmayan se juntaram em estúdio para a realização de diversas jams sessions – que não foram gravadas por discordâncias internas à época. Ao jornalista Kory Grow, os membros da banda falaram sobre o processo:

“Mandei uma mensagem para os outros três caras e disse: ‘Independentemente dos sentimentos uns pelos outros e do passado, precisamos colocar tudo de lado. Temos que entrar no estúdio, criar uma música para nosso povo, chamar a atenção para a situação e galvanizar as forças do bem em todo o mundo’. Recebi respostas bastante positivas”, disse John Dolmayan.

Odadjian aceitou facilmente. Ele estava vendo notícias sobre o conflito e sentiu o mesmo. Na verdade, ele estava quase pronto para enviar sua própria mensagem quando recebeu o texto do baterista.

Tankian decidiu que para chamar a atenção para o conflito valia a pena baixar a guarda. “Eu não estou fazendo isso como um artista, para o System Of A Down ou para qualquer um dos caras da banda; todos nós estamos fazendo isso por nosso povo. Esta não é uma decisão criativa, não é uma decisão de negócios. Esta é uma decisão de ativismo e que tem precedência sobre todas as outras coisas para nós.”

“Se nós não fizermos isso, não haverá nenhuma outra grande banda de rock armênia que fará. Não existem muitas grandes celebridades armênias por aí que vão fazer isso. É uma espécie de dever. Viemos juntos porque nosso país precisava de nós, não necessariamente porque estamos muito animados em fazer uma nova música do System Of A Down. Nosso povo precisa de nós”.

Malakian enviou a seus companheiros de banda “Protect The Land”, um forte hino que ele havia reservado para o próximo álbum de sua outra banda, o Scars on Broadway, e o restante do System sentiu que falava perfeitamente de como eles se sentiam. A faixa abre com um riff de guitarra lentamente agitado e letras harmoniosas de Malakian e Tankian que perguntam aos ouvintes o que fariam se alguém tentasse expulsá-los de casa. “Would you stay and take a stand?” eles questionam tristemente. “Would you stay with gun in hand? They protect the land”. Malakian passa os dedos pelo braço da guitarra, imitando o som de bombas caindo.

O guitarrista escreveu a música cerca de um ano e meio atrás, depois de ter escrito outra faixa sobre as tensões em torno de Artsakh, chamada “Lives”, para seu material de 2018, o ‘Dictator’. “Usamos [Lives] para arrecadar dinheiro e para enviar kits de primeiros socorros para Artsakh, porque ouvi dizer que soldados e civis estavam precisando. Então foi assim que o projeto [Protect The Land] veio à minha mente; o povo e os soldados de Artsakh estavam em meus pensamentos.”

Eles finalizaram a música uma semana depois da mensagem de texto inicial de Dolmayan, e Odadjian imediatamente começou a trabalhar no vídeo da faixa em particular, filmando diferentes gerações de descendentes armênios enquanto contava a eles que estava fazendo um documentário sobre a diáspora armênia que se espalhou pelo mundo após o genocídio. “Eu trouxe pessoas de todas as idades”, diz ele sobre o clipe. “No vídeo temos bebês, meus dois filhos, o Sumo Sacerdote de Los Angeles, médicos, motoristas de táxi e soldados. Ao mesmo tempo, temos pessoas em Artsakh filmando na linha de frente da guerra. Portanto, a mensagem é: ‘Sei que estamos a milhares de quilômetros de distância, mas estamos com nossas tropas e defendemos essa causa comum como armênios’”. O clipe apresenta imagens de soldados na linha de frente, e também takes da banda com projeções de algumas das filmagens feitas por Odadjian sobrepostas em seus rostos, semelhante ao clipe “Toxicity”.

O empresário da banda imaginou que “Protect The Land” capturava a importância do momento, mas pediu que gravassem outra música mais pesada para o complemento. Três ou quatro anos atrás, Malakian, Dolmayan e Odadjian se reuniram para uma jam session onde produziram várias músicas, mas eles as abandonaram quando Tankian não quis se comprometer com um álbum. Um dos destaques foi “Genocidal Humanoidz,” escrito por Malakian, um punk acelerado sobre como lutar contra o “diabo”. Desta vez, todos os quatro membros concordaram em gravar a faixa. Malakian canta, “Persecution ends now”, no meio do caminho e eleva o tom de sua guitarra como uma arma antes da banda passar por um turbilhão de riffs de black metal, e Tankian pergunta: “Guess who’s coming over to dinner? The genocidal humanooooiids!”. É um clima totalmente diferente que captura a imprevisibilidade espasmódica da melhor música da banda.

“A música realmente combinou bem [com Protect the Land]”, diz Malakian. “As letras originais são muito parecidas com as que gravamos. A linha original [em Genocidal Humanoidz] era, ‘Terrorists are coming, and they’re never going to stop’, então, mudei para: ‘Terrorists we’re fighting, and we’re never gonna stop’. A palavra ‘humanoids’ veio até mim pelo falecido empresário de luta livre Bobby ‘The Brain’ Heenan. Ele costumava chamar o público de um bando de humanoides, tipo um bando de idiotas. Tive que mudar muito pouco a mensagem para que funcionasse como estamos transmitindo agora”.

Mesmo que eles não estivessem todos juntos em um estúdio por mais de uma década, a gravação das músicas foi surpreendentemente suave e rápida. Poucos dias depois de decidir pela gravação, cada músico começou a arranjar sua própria parte – Tankian desenvolveu suas harmonias para “Protect The Land” enquanto ainda estava na Nova Zelândia, onde vive meio período – e o vocalista voou para Los Angeles em 11 de outubro para se juntar a todos no estúdio. Eles terminaram de gravar as faixas naquela semana.

“Isso era algo maior do que qualquer problema que já tivemos com o System”, diz Odadjian. “Tivemos que colocar tudo de lado e dizer: ‘Temos que nos reunir porque, quando falarmos que isso ocorreu após 15 anos, as pessoas vão pensar: ‘Uau, esses caras voltaram? Para quê?’”.

Cada um dos membros da banda expressou temor de que os azeris, que são predominantemente muçulmanos, considerem a batalha contra a Armênia, uma nação cristã, uma guerra santa e que o conflito possa se transformar em outro genocídio. Ao chamar a atenção para a guerra, eles esperam que seus fãs entrem em contato com seus representantes no governo e peçam intervenção. “Faça sua voz ser ouvida, fale sobre essa injustiça e diga que gostaria de ver a Turquia e o Azerbaijão sancionados”, diz Tankian. “Gostaria de ver os perpetradores punidos. Não é preciso dinheiro ou militares para fazer isso, basta pressão econômica sobre esses países para recuar, porque eles são os agressores”.


Topo das paradas

Com ‘Protect The Land’ e ‘Genocidal Humanoidz’ o SOAD voltou a ocupar o topo das paradas após mais de uma década. As faixas, campeãs de venda nos Estados Unidos, estrearam no topo da parada Hot Hard Rock Songs.

‘Protect The Land’, que ficou em primeiro lugar, alcançou a marca de 2.7 milhões de streams e 5 mil downloads. ‘Genocidal Humanoidz’ obteve 1.8 milhões de streams e também 5 mil downloads, ficando em segundo lugar.

Fotos por Armen Keleshian.

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