Daron Malakian fala de sua relação com Serj Tankian, futuro do System Of A Down e mais

System of a Down

Daron Malakian concedeu uma nova entrevista à Guitar World e falou sobre as duas músicas lançadas pelo System Of A Down – após 15 anos, equipamentos utilizados na gravação, vida musical, relação com o vocalista Serj Tankian e sobre o futuro do SOAD.

Leia a matéria abaixo!


As duas novas faixas, ‘Protect The Land’ e ‘Genocidal Humanoidz’, nunca teriam se materializado sob a bandeira do SOAD se não fosse pelo conflito estourado recentemente entre a Armênia e o Azerbaijão/Turquia – desencadeando a maior violência que a região de Artsakh já vivenciou em quase três décadas.

“Não tenho todos os detalhes, mas fomos forçados a algum tipo de acordo que significa que estamos desistindo de terras”, disse o guitarrista fundador do SOAD ao Guitar World. “É uma situação muito ruim agora – há 100.000 a 150.000 pessoas que serão deslocadas e se tornarão refugiadas. As coisas pioraram ainda mais nos últimos dias”.

“Tentamos aumentar a conscientização porque há uma catástrofe humana acontecendo no mundo e as pessoas não estão prestando atenção. Algumas pessoas nem sabem onde fica a Armênia! Então, é claro que não vão focar em algum país que nunca ouviram falar.”

“Temos a sorte de estar em uma banda que pode espalhar a mensagem para nosso povo desta forma. Não tenho certeza do quanto ajudamos na situação, a julgar pelos últimos dias, mas há muitas pessoas que agora sabem sobre o que está acontecendo, algo que provavelmente não aconteceria de outra forma.”

Aqui, Malakian explica como as tragédias reuniram o SOAD novamente – pelo menos em duas novas faixas – em ajuda a uma causa muito próxima de seus corações.

Ouvimos dizer que foi seu baterista, John Dolmayan, que deu o pontapé inicial ao sugerir uma espécie de reunião no grupo virtual da banda.

Daron: Sim, ele mandou uma mensagem para a banda em nosso grupo de conversa dizendo que deveríamos fazer algo para aumentar a conscientização. Eu tinha uma música que já havia sido gravada e estava pronta para ser lançada em um álbum com minha banda paralela, o Scars On Broadway, mas a faixa se encaixava tão perfeitamente na situação que eu tive que trazer para a banda. Então eu disse a eles que tinha uma música chamada ‘Protect The Land’.

Apesar de ter sido escrita antes, parece que foi escrita especificamente para a situação em sua terra ancestral.

Daron: Sim, eu sinto que as letras foram feitas sob medida para a situação. Na verdade, eu escrevi a música um ano e meio atrás, antes que houvesse qualquer grande conflito. Bem, sempre houve algum tipo de conflito nos últimos 20 ou 30 anos, mas não como este. Então, eu tinha a música pronta e todos me disseram para mandá-la, o que eu fiz. E deu certo.

Então, como tudo foi montado?

Daron: Mandei para o Serj Tankian a música com todas as partes originais feitas, ele ainda estava na Nova Zelândia na época e encaixou alguns dos vocais. Houve um pouco de idas e vindas ao longo do processo, coisas como: ‘Bem, talvez tente cantar assim’, o que foi um pouco diferente, porque normalmente trabalho cara a cara no mesmo estúdio com as pessoas quando compartilho ideias.

Ele mandava coisas de volta, eu mandava algo de volta e assim por diante. Então pedi a John e Shavo para que eles gravassem suas partes no estúdio – como eu disse, eu já tinha a música gravada, mas regravamos tudo, exceto meus vocais, que permaneceram os mesmos da versão do Scars.

A outra música nova, ‘Genocidal Humanoidz’, é brilhantemente imprevisível, incluindo até alguns riffs de black metal.

Daron: Eu sei! Mas tento manter nossas canções em algum tipo de formato musical. Eu tento muitas coisas progressivas, claro, mas sempre mantenho isso como uma música. Às vezes, quando você soa de forma muito progressiva, perde a música e o gancho.

Com a minha escrita, geralmente gosto de manter algum tipo de estrutura ou formato de música tradicional. Pode ser um padrão no formato tradicional, mas utilizo esse método tradicional até certo ponto!

Você usou principalmente amplificadores Marshall e guitarras Gibson e Ibanez ao longo dos anos. O que estamos ouvindo nas novas gravações?

Daron: Não usei pedais, mas passei por um amplificador Friedman de 100 Watts que está muito perto de um Marshall JMP. Eu mixei isso tudo com um Marshall, que é a parte principal do tom dessas duas músicas.

E sim, praticamente todas as minhas guitarras desde ‘Mezmerize’ e ‘Hypnotize’ foram gravadas com uma 1962 Les Paul SG Standard que eu possuo. Desta vez eu mixei com uma 80s Gibson Korina Flying V, então foram utilizadas uma SG e Flying V, mixadas e dobradas.

Você foi um dos artistas da campanha Marshall Mode Four – um dos amplificadores mais barulhentos com impressionantes 350 watts. Nós nos lembramos de ver este anúncio com você deitado em duas pilhas de amplificadores como se fosse uma cama.

Daron: Na verdade, tenho o protótipo desse amplificador, eles provavelmente esqueceram que me deram [risos]. Não está escrito Marshall, em vez disso, tem uma escrita alterada, então é totalmente o protótipo. Não tenho certeza se eles sabem que ainda tenho isso [risos].

Sempre adorei Marshall, mas realmente gosto dos amplificadores Friedman. O cara que os faz, na verdade, costumava modificar meus Marshalls, então, quando ouvi esses amplificadores, senti que pareciam meus Marshalls modificados. O que explica porque comecei a usá-los.

Além disso, não sou um cara de muitos equipamentos. Eu praticamente plugo minha guitarra direto no amplificador. É assim que obtenho meu som. Eu não uso compressores ou algo parecido, é muito simples – guitarra, amplificador e apenas eu tocando, eu acho. Nada complicado.

Quais são os principais segredos do estilo Daron Malakian – como visto em apresentações ao vivo de faixas como Psycho, Streamline, Highway Song, Lonely Day, Mr. Jack?

Daron: Sabe, muitos dos meus heróis da guitarra não são realmente caras destruidores. Sou um grande fã de Jerry Garcia. Caras que não são necessariamente rápidos em shredding [técnica de velocidade] e sweeping [técnica de palhetada], mas são mais conduzidos pela melodia. Quando eu solo, gosto que minhas partes soem como uma melodia em vez de um monte de notas rápidas repetidamente.

Foram os guitarristas mais simplistas e baseados em sentimentos que mais me influenciaram – e tenho tantas influências diferentes. Muitas das coisas que escrevo vêm de todas as coisas que gosto, integradas umas às outras. Isso é o que cria o estilo de minhas composições e meu estilo na guitarra.

Tenho certeza de que muitas pessoas não captam The Grateful Dead no que eu faço, mas eu os ouço muito. Na minha cabeça, é isso que estou imitando – coisas assim e Neil Young. Muitas pessoas o ouvem e pensam: ‘Oh, ele faz sua guitarra soar como um gato chorando’, mas eu realmente amo a sensação e a luta que ele trava com as guitarras. É como se ele estivesse lutando com o instrumento e eu realmente gosto disso. É emoção crua.

Nunca fui um cara de ficar sentado e aprendendo. Eu nunca pratiquei um dia na minha vida. Eu simplesmente tocava. Eu não vou sentar e fazer escalas repetidamente. Não ligo muito para memória muscular quando ouço músicos. Você ouve muito o lado procedural e não sente o suficiente. Estou muito mais no lado da sensação do que no lado da memória muscular, eu acho.

Dito isso, não faltam imagens suas alternando palhetadas fortes e rápidas.

Daron: Bem, eu toco há muito tempo. Nunca pratiquei, mas sempre toquei e, na adolescência, tocava oito ou nove horas no meu quarto por dia. Nunca considerei isso um treinamento porque apenas tocava o que queria.

Praticar soa como lição de casa para mim. Eu toco quando quero tocar. Toco por horas! Isso ajuda você a desenvolver habilidade e técnica. Não estou dizendo que não tenho nenhuma técnica, é claro que desenvolvi algumas técnicas, mas não é nisso que estou focado. Simplesmente vem junto, como eu fiz ao longo dos anos.

Então, qual é o seu método principal para escrever os hinos que fizeram o SOAD ser famoso?

Acho que foco mais em compor arranjos e vocais. Eu não escrevo um riff e trago para a banda dizendo: ‘Ei, olha isso, o que vocês acham?’, e todo mundo vai e toca o que querem em cima disso. A maioria das músicas que você ouviu no SOAD são músicas que eu já estruturei por conta própria e depois levei para a banda.

Meus pontos fortes são os arranjos e a composição das músicas, ao invés de tocar guitarra ou fritar. Eu misturo minhas ideias vocais com meus riffs e com a bateria. Essas são coisas que eu planejo antes de apresentar músicas para a banda.

Bem, você e Serj têm vozes muito diferentes, e talvez seja por isso que elas se misturam tão bem.

Daron: Sim! Nós soamos bem juntos e os fãs obviamente também pensam assim, e é por isso que temos tido tanto sucesso ao longo dos anos – mesmo considerando o tempo que passamos sem lançar músicas, ainda me surpreende que fazemos shows e nossos fãs ainda estão interessados na banda. Fico muito lisonjeado e sou muito grato por isso.

Especialmente quando eu estava compondo ‘Mezmerize’ e ‘Hypnotize’, eu escrevia partes sabendo que era ali que Serj iria cantar, aqui que eu vou cantar e era lá que cantaríamos juntos. Eu realmente tenho muitas coisas planejadas antes mesmo de trazê-las para a banda.

O que você lembra sobre escrever a música que muitos chamam de seu maior sucesso, ‘Chop Suey!’?

Daron: Comecei a escrever essa música quando ainda estávamos em um trailer, antes mesmo de termos nosso primeiro ônibus de turnê. Eu tinha uma pequena cama nos fundos e tocava uma guitarra enquanto dirigíamos pela estrada durante a turnê. É aí que eu me lembro que cheguei com a introdução.

Foi onde eu praticamente organizei tudo antes de apresentar para a banda. Lembro que havia um conjunto diferente de letras que mudamos, era exatamente a mesma frase, mas palavras diferentes durante os versos. Os refrões que mantivemos, todas as coisas de “Self-righteous suicide…”.

Então, sim, não me lembro em que cidade ou estado estávamos, mas estava na parte de trás de um trailer. ‘Toxicity’ ainda havia sido lançado, então obviamente ainda éramos uma banda promissora na época.

Você tem uma ideia de que tipo de equipamento foi utilizado para a gravação real?

Daron: Não faço ideia, isso foi há muito tempo [risos]. Eu não tenho ideia mesmo. Provavelmente algum equipamento alugado, mas tenho certeza de que havia um Marshall no meio. Eu fazia muito mais dobras na guitarra naquela época, muito mais do que faço agora.

Então, quando você ouve essa música, você escuta todas essas partes de acústica e bandolim sob essa sonoridade. Mas não me lembro do equipamento exato que usei.

Guitarristas como você e Adam Jones, do Tool, elevaram os riffs de Drop D a novos patamares nos anos 90. Qual você acha que é o truque para tirar o proveito máximo dessa afinação?

Daron: Na composição? Não sei se poderia ensinar alguém a compor [risos], mas diria apenas para ser honesto. É muito mais fácil explicar como tocar guitarra. Eu nunca saberia como me aproximar explicando como compor.

Você tem que tirar alguma influência das coisas que está ouvindo no momento ou das coisas que já ouviu. Para mim, acho que a parte mais importante do que faço não é tocar ou praticar, é ouvir.

Sou um conhecedor de música – adoro vários estilos diferentes. Não se trata apenas de heavy metal, giro em torno de tudo. Se você pensar em um gênero, eu já terei me aprofundado nele, estudado e absorvido. Mas só porque estou ouvindo blues agora não significa que vou escrever uma música de blues. Dois anos depois, no entanto, algo que eu ouvia naquela época vai verter para fora de mim enquanto toco.

Tudo acontece de forma realmente orgânica e natural. Eu não forço nada, acidentalmente só sai de mim alguns anos depois que passo por alguma fase gótica ou eletrônica. Você sabe o que eu quero dizer?

Ouvir música e estar interessado na música de outras pessoas é provavelmente a parte mais importante do que eu faço. Isso me afeta no sentido de revelar coisas em minhas composições e estilo.

Temos que perguntar: quais você acha que são as chances de mais músicas novas do SOAD em um futuro próximo?

Daron: Olha, eu nunca digo nunca. Nós nem sabíamos que isso iria acontecer. Eu estava prestes a lançar essas músicas com minha outra banda, o Scars On Broadway. Então toda a situação na Armênia aconteceu e colocamos nossas diferenças de lado. Nossas diferenças são apenas dentro da banda.

Pessoalmente e fora da banda, todos se dão razoavelmente bem. Não há ódio mútuo no SOAD. Somos como uma família. Muitas pessoas pensam: ‘Oh, Serj e Daron não se dão bem’, mas não, isso não é verdade. Serj e Daron se dão muito bem.

Mas Serj e Daron, ou Shavo e Serj, diferentes pessoas na banda terão uma ideia diferente de como eles querem que a banda siga em frente. É aí que estão nossas discordâncias.

Portanto, definitivamente há uma chance de que isso possa acontecer…

Daron: Nunca digo nunca, mas ao mesmo tempo não espero fazer mais nada com o SOAD no momento ou imediatamente após isso. Realmente parece que nossos fãs gostaram dessas novas músicas. Isso é importante para mim.

Adicionamos duas novas músicas ao catálogo do System que estão no mesmo nível de tudo o que lançamos anteriormente e nossos fãs aceitaram dessa forma, o que significa muito para mim.

Por agora será isso. Se mais tarde acontecer, falaremos sobre isso, mas por enquanto vou continuar fazendo o que estou fazendo e todos os outros simplesmente continuarão o que estão fazendo. É tudo muito bom, estou muito satisfeito com o feedback que recebemos.

Meu primeiro show de rock foi uma apresentação do SOAD no London Astoria, em 1999, quando era um jovem adolescente. Foi uma experiência de mudança de vida de muitas maneiras.

Daron: É disso que eu estou falando. Se o que estamos fazendo muda sua vida a ponto de você estar fazendo algo agora com música e curtindo uma vida trabalhando com música, isso é incrível. Se eu e minha banda contribuímos para isso, bem, é ótimo ouvir isso, cara. Fantástico.

E é disso que se trata – inspirar pessoas e gerações futuras a continuar a arte, o espírito e a evolução do rock. Lembro-me bem daqueles primeiros shows no Astoria.

Tocamos lá uma vez com o Slayer e voltamos como atração principal pouco depois. Foi muito legal para nós ir de banda de abertura para headline em tão pouco tempo!

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