Egos de lado: System Of A Down fala sobre a construção de músicas novas

System of a Down

O System Of A Down concedeu uma entrevista à RollingStone para falar sobre os mais novos lançamentos, as faixas ‘Protect the Land’ e ‘Genocidal Humanoidz’.

Ao jornalista Kory Grow, Serj, Daron, Shavo e John contaram sobre os bastidores da volta ao estúdio – após 15 anos. Leia a matéria na íntegra!


Foi preciso uma guerra para o System Of A Down gravar novas músicas. Depois de ver o Azerbaijão iniciar um conflito com a Armênia em setembro, os músicos, todos descendentes de armênios, correram para o estúdio para gravar duas novas faixas: “Protect The Land” e “Genocidal Humanoidz”, para chamar a atenção para a crise em sua pátria ancestral.

“Mandei uma mensagem para os outros três caras e disse: ‘Independentemente dos sentimentos uns pelos outros e do passado, precisamos colocar tudo de lado. Temos que entrar no estúdio, criar uma música para nosso povo, chamar a atenção para a situação e galvanizar as forças do bem em todo o mundo’. Recebi respostas bastante positivas”, disse John Dolmayan.

Odadjian aceitou facilmente. Ele estava vendo notícias sobre o conflito e sentiu o mesmo. Na verdade, ele estava quase pronto para enviar sua própria mensagem quando recebeu o texto do baterista.

Tankian decidiu que para chamar a atenção para o conflito valia a pena baixar a guarda. “Eu não estou fazendo isso como um artista, para o System Of A Down ou para qualquer um dos caras da banda; todos nós estamos fazendo isso por nosso povo. Esta não é uma decisão criativa, não é uma decisão de negócios. Esta é uma decisão de ativismo e que tem precedência sobre todas as outras coisas para nós.”

“Se nós não fizermos isso, não haverá nenhuma outra grande banda de rock armênia que fará. Não existem muitas grandes celebridades armênias por aí que vão fazer isso. É uma espécie de dever. Viemos juntos porque nosso país precisava de nós, não necessariamente porque estamos muito animados em fazer uma nova música do System Of A Down. Nosso povo precisa de nós”.

Malakian enviou a seus companheiros de banda “Protect The Land”, um forte hino que ele havia reservado para o próximo álbum de sua outra banda, o Scars on Broadway, e o restante do System sentiu que falava perfeitamente de como eles se sentiam. A faixa abre com um riff de guitarra lentamente agitado e letras harmoniosas de Malakian e Tankian que perguntam aos ouvintes o que fariam se alguém tentasse expulsá-los de casa. “Would you stay and take a stand?” eles questionam tristemente. “Would you stay with gun in hand? They protect the land”. Malakian passa os dedos pelo braço da guitarra, imitando o som de bombas caindo.

O guitarrista escreveu a música cerca de um ano e meio atrás, depois de ter escrito outra faixa sobre as tensões em torno de Artsakh, chamada “Lives”, para seu material de 2018, o ‘Dictator’. “Usamos [Lives] para arrecadar dinheiro e para enviar kits de primeiros socorros para Artsakh, porque ouvi dizer que soldados e civis estavam precisando. Então foi assim que o projeto [Protect The Land] veio à minha mente; o povo e os soldados de Artsakh estavam em meus pensamentos.”

Eles finalizaram a música uma semana depois da mensagem de texto inicial de Dolmayan, e Odadjian imediatamente começou a trabalhar no vídeo da faixa em particular, filmando diferentes gerações de descendentes armênios enquanto contava a eles que estava fazendo um documentário sobre a diáspora armênia que se espalhou pelo mundo após o genocídio. “Eu trouxe pessoas de todas as idades”, diz ele sobre o clipe. “No vídeo temos bebês, meus dois filhos, o Sumo Sacerdote de Los Angeles, médicos, motoristas de táxi e soldados. Ao mesmo tempo, temos pessoas em Artsakh filmando na linha de frente da guerra. Portanto, a mensagem é: ‘Sei que estamos a milhares de quilômetros de distância, mas estamos com nossas tropas e defendemos essa causa comum como armênios’”. O clipe apresenta imagens de soldados na linha de frente, e também takes da banda com projeções de algumas das filmagens feitas por Odadjian sobrepostas em seus rostos, semelhante ao clipe “Toxicity”.

O empresário da banda imaginou que “Protect The Land” capturava a importância do momento, mas pediu que gravassem outra música mais pesada para o complemento. Três ou quatro anos atrás, Malakian, Dolmayan e Odadjian se reuniram para uma jam session onde produziram várias músicas, mas eles as abandonaram quando Tankian não quis se comprometer com um álbum. Um dos destaques foi “Genocidal Humanoidz,” escrito por Malakian, um punk acelerado sobre como lutar contra o “diabo”. Desta vez, todos os quatro membros concordaram em gravar a faixa. Malakian canta, “Persecution ends now”, no meio do caminho e eleva o tom de sua guitarra como uma arma antes da banda passar por um turbilhão de riffs de black metal, e Tankian pergunta: “Guess who’s coming over to dinner? The genocidal humanooooiids!”. É um clima totalmente diferente que captura a imprevisibilidade espasmódica da melhor música da banda.

“A música realmente combinou bem [com Protect the Land]”, diz Malakian. “As letras originais são muito parecidas com as que gravamos. A linha original [em Genocidal Humanoidz] era, ‘Terrorists are coming, and they’re never going to stop’, então, mudei para: ‘Terrorists we’re fighting, and we’re never gonna stop’. A palavra ‘humanoids’ veio até mim pelo falecido empresário de luta livre Bobby ‘The Brain’ Heenan. Ele costumava chamar o público de um bando de humanoides, tipo um bando de idiotas. Tive que mudar muito pouco a mensagem para que funcionasse como estamos transmitindo agora”.

Mesmo que eles não estivessem todos juntos em um estúdio por mais de uma década, a gravação das músicas foi surpreendentemente suave e rápida. Poucos dias depois de decidir pela gravação, cada músico começou a arranjar sua própria parte – Tankian desenvolveu suas harmonias para “Protect The Land” enquanto ainda estava na Nova Zelândia, onde vive meio período – e o vocalista voou para Los Angeles em 11 de outubro para se juntar a todos no estúdio. Eles terminaram de gravar as faixas naquela semana.

“Isso era algo maior do que qualquer problema que já tivemos com o System”, diz Odadjian. “Tivemos que colocar tudo de lado e dizer: ‘Temos que nos reunir porque, quando falarmos que isso ocorreu após 15 anos, as pessoas vão pensar: ‘Uau, esses caras voltaram? Para quê?'”.

Cada um dos membros da banda expressou temor de que os azeris, que são predominantemente muçulmanos, considerem a batalha contra a Armênia, uma nação cristã, uma guerra santa e que o conflito possa se transformar em outro genocídio. Ao chamar a atenção para a guerra, eles esperam que seus fãs entrem em contato com seus representantes no governo e peçam intervenção. “Faça sua voz ser ouvida, fale sobre essa injustiça e diga que gostaria de ver a Turquia e o Azerbaijão sancionados”, diz Tankian. “Gostaria de ver os perpetradores punidos. Não é preciso dinheiro ou militares para fazer isso, basta pressão econômica sobre esses países para recuar, porque eles são os agressores.”

O System Of A Down também espera oferecer suporte humanitário na Armênia e em Nagorno-Karabakh. “Temos feito isso como uma diáspora global e uma comunidade armênia, mas precisamos da ajuda porque nossos adversários têm petróleo, gás natural e estão gastando bilhões de dólares em seus militares”, diz o vocalista. “Precisamos de ajuda financeira para cuidar de nosso povo que está em abrigos antiaéreos em Artsakh e de famílias cujos filhos não estão na escola. Há um pico intenso [em casos de Covid-19] na Armênia, o que é muito perigoso e assustador. Portanto, é uma catástrofe humanitária realmente horrível que precisa ser controlada.”

Embora Dolmayan esteja animado por ter reunido sua banda de volta para o cenário, ele diz que os fãs não devem esperar por mais músicas ou um novo álbum. “Se dependesse de mim, teríamos um novo álbum a cada três anos”, ele disse. “Mas as coisas não dependem de mim. Estou à mercê da minha equipe e, embora tenha lutado por isso por muitos anos com os membros da banda, aceitei que é isto. Temos cinco álbuns e [agora] duas músicas. Conquistamos muito em nossas carreiras. Se acabar assim, que assim seja.”

Tankian, que arquivou um EP solo, o ‘Elasticity’, que planejava lançar neste outono, não tem planos de trabalhar em novas músicas com o System ou com qualquer outro músico até que o conflito seja resolvido. “Não consigo pensar em mais nada agora – nem na minha própria música, nem na música do System”, ele disse. “Estou focado no que está acontecendo com a guerra e orando por um cessar-fogo para que haja negociações. Estou apenas focado nisso. É uma situação de vida ou morte.”

Mas alguns de seus companheiros de banda estão mais esperançosos de que o System seja retomado em algum momento no futuro. “Estou orgulhoso por termos feito isso”, diz Odadjian. “Eu gostaria que pudéssemos entrar [em estúdio] e fazer mais. Talvez possa acontecer isso, talvez não. No entanto, sempre fui otimista.”

“Eu nunca digo nunca”, diz Malakian. “Eu não esperava isso. Eu estava pronto para lançar meu próximo disco do Scars. Isso meio que aconteceu do nada, então quem sabe. Se não gravarmos novamente, então continuarei fazendo o que faço e todos os outros continuarão fazendo o que fazem. Mas foi bom fazer isso”. Ele está mais feliz que os membros da banda puderam superar seus problemas a tempo para o bem de sua terra natal. “Não sou um soldado, mas sinto que faço parte disso”, ele diz. “Vou contribuir com minhas músicas.”

Nenhum comentário