[Kerrang!] System em colapso?
Eles não gravaram um álbum em uma década e o mundo acha que eles se odeiam. Será o System of a Down a banda de rock mais disfuncional? Em uma entrevista exclusiva mundial, eles falam para Amit Sharma pensar novamente…
“Um segundo, irmão, deixe eu apenas estacionar”. É uma abafada tarde de sexta-feira em Los Angeles quando o Shavo do System of a Down se desloca para a primeira e puxa seu carro a fim de enfatizar de uma vez por todas para a Kerrang! que diabos está acontecendo nessa banda. Uma banda que fala tão pouco como eles são vistos. Uma banda que não lançou uma nova gravação em uma década, com apenas esporádicas aparições ao vivo preenchendo esse período. Se alguém puder ajudar a compreender o funcionamento interno do rolo compressor da banda armênio-americana com vendas multi-platina, essa pessoa é definitivamente o seu alto co-fundador e baixista. Há apenas 18 meses, foi Shavo que se encontrou olhando para a tela do computador, seus dedos batendo contra o teclado em um ritmo de raiva e desilusão conforme ele compartilhou seus pensamentos com o mundo no Facebook. Era o peso de anos de frustração caindo em seus ombros, finalmente abrindo para a legião de fãs quem queria mais do SOAD, assim como ele fez. As atualizações de status deram lugar a um grande ponto de interrogação sobre o futuro do quarteto, chegando tão longe ao ponto de sugerir que se o cantor Serj Tankian continuasse a paralisar os esforços da banda, ele estaria forçando-os a substituí-lo.
Nem tudo estava bem esclarecido. Horas mais tarde os discursos emocionais haviam sido retirados do ar, neutralizados por uma declaração muito mais fria esclarecendo que seus comentários “não refletem os sentimentos do System of a Down como banda coletiva”. No entanto, lá estavam eles no palco do Reading & Leeds 2013, apenas alguns meses depois, desencadeando o caos inimitável de estabelecimentos lotados de Hollywood em meados dos anos 90 e que catapultou a banda para os escalões mais altos da música pesada. Era como se nada tivesse acontecido; palavras tinham sido retiradas e atos desfeitos, naturalmente levando a algumas das principais perguntas sobre o que estava por vir. Eles estavam de volta para o bem? Foi tudo no passado? Ou eles só estavam lucrando para financiar mais projetos paralelos e manter as piscinas aquecidas? A verdade é que tem havido um ar de incerteza e confusão perseguindo as bandas novatas de nu-metal no topo das paradas por muito tempo. Claro, eles terminaram seu hiato de quatro anos, mediante a reforma em 2010, mas para a maioria dos fãs isso não tem realmente se mostrado como uma união real. A banda raramente tem sido fotografada junta, e a partir de observações feitas em várias entrevistas, você seria perdoado por pensar que eles estavam começando a odiar a coragem de cada um. Surpreendente foi, então, ao ouvir que 2015 veria SOAD embarcar no ‘Wake Up The Souls Tour’, incluindo o seu primeiro show no interior do Reino Unido em uma década, no Wembley’s SSE Arena em abril.
“Nossa banda nunca se separou – nós apenas tiramos algum tempo fora.” insiste Shavo. “Há um monte de bandas que fazem isso e terminam. Mas não o System. Se havia alguma tensão, ela se foi. [O discurso do Facebook] era apenas que eu queria fazer shows e Serj queria fazer sua própria coisa por enquanto. Isso me levou a entrar como se eu estivesse dizendo coisas ruins, mas nada disso foi feito dessa forma. Não foi apenas um lapso momentâneo de falta de sanidade, mas, sabe… talvez uma coisa raivosa.
“Não foi o nosso melhor momento”, suspira o baterista John Dolmayan, falando alguns dias mais tarde.
“Shavo cometeu um erro. Houve momentos em que eu queria sufocar as pessoas na banda, ou elas queriam me sufocar. Isso é apenas a natureza dos relacionamentos.”
De longe o membro mais quieto do SOAD, mesmo John parecia estar perdendo isso com o ritmo lento dos esforços da banda no início deste ano, dizendo que se sentia como se sua banda estivesse “transformando-se nos malditos Eagles”. Nome de uma música dos Eagles gravada desde os anos 70. Exatamente.
“Eu senti que nós tínhamos tido tempo de folga suficiente e poderíamos facilmente nos tornar uma banda de sucesso de hits se não fossemos cuidadosos”, ele admite. “E foi realmente estúpido que não estivéssemos criando. Tenho 42 anos agora, para ter desperdiçado nove anos da minha vida sem fazer álbuns é um absurdo.”
Assim, 2014 foi o ano em que System of a Down decidiu que já era o suficiente. Estava na hora de fazer as pazes. Tudo começou com conversas sobre como comemorar o 100º aniversário do genocídio armênio. E-mails se transformaram em reuniões, que se transformaram em ensaios. Foi um tempo para reconectar e revigorar o seu amor pela banda que eles construíram para se tornar uma das maiores bandas de metal de todos os tempos.
Embora ninguém jamais pudesse disputar a popularidade do System (40 milhões de álbuns vendidos e contados), raramente se é falado sobre o quanto ela é necessária. Ingressos esgotados para o Wembley Arena em um dia, sem muito mais que um sopro de um projeto de lei de apoio, serviram como um lembrete de quão impactante a banda se tornou: uma das poucas confiáveis para ser atração principal em uma das maiores arenas do mundo, assim como as luzes brilhantes e multidões gigantescas do circuito festival europeu. Sentindo-se como uma banda renascida e que vira uma chave de ignição que iria enviar ondas impactantes através de todos os cantos do globo, os membros agora querem olhar para o seu futuro e pôr fim a relatos de conflitos de personalidade e relações espinhosas. “Eu disse a Serj: ‘Peço desculpas se eu disse alguma coisa que o ofendeu. Eu não queria e não foi culpa sua. Eu sei que você tinha outras coisas para fazer'”, Shavo continua. “Nós levaríamos balas pelo outro. Eu quero que todos os leitores da Kerrang! saibam que nunca houve qualquer sangue ruim entre nós. Basta olhar na internet e saber de muitas fotos existentes de mim abraçando o Serj. Eu amo o cara!”
“Serj não é o inimigo do SOAD”, resume John. “Ninguém é. Nós todos compomos a banda e ele é tão essencial quanto todos. Esse é o ponto principal.”
A história do System of a Down dentro da explosão nu-metal duas décadas atrás é tão enigmática como a própria banda. Formada em 1994 por estudantes de uma escola armênia da Sunset Boulevard em Hollywood, o timing não poderia ter sido mais perfeito. Os deuses do metal dos anos 80 estavam começando a perder seu trovão e o Korn tinha acabado de dar no heavy o chute na bunda que ele precisava. O SOAD se viu na vanguarda de uma cena que não seria capaz de contê-los por muito tempo.
Agora promovido pela produção lendária do mago Rick Rubin, que os contratou sob o seu American Recordings para o lançamento de seu álbum autointitulado de estreia, SOAD foi lançado a alturas vertiginosas. Eles abriram shows para seus maiores heróis pelo mundo e, apenas um ano depois, foram atração principal em seus próprios shows esgotados nos maiores locais do Reino Unido. É um momento que John lembra com carinho.
“Claro que poderíamos esgotar os ingressos do [pequeno local de Sunset] Whisky, mas o Astoria [em Londres]? Certamente não conhecíamos ninguém na Inglaterra, ainda mais cerca de 2.000 pessoas”.
Enquanto a popularidade deles crescia, da mesma forma crescia a cena nu-metal ao redor deles. Como Hollywood tornou-se o playground apocalíptico para uma geração de almas torturadas atacando as injustiças da sociedade, o Strip foi logo tomado por desajustados. Tratava-se de quem trabalhava os plantões mais longos no necrotério do hospital e quem mais usava delineador nos olhos na escola noturna. SOAD, entretanto, sempre se sentiu os esquisitos do bando. Eles não precisavam agir de forma estranha; eles eram estranhos.
“As bandas estavam flutuando por Los Angeles”, relembra Shavo. “Nós apenas evoluímos. Começamos uma revolução. Eles nos aceitaram bem”.
Isso é um eufemismo. O segundo álbum do SOAD, Toxicity, lançado em 2001, estreou na pole position das paradas americanas. E, quanto à revolução, eles certamente conseguiram. O quarteto soube que haviam chegado ao topo da parada Billboard ao mesmo tempo em que a tragédia de 11 de setembro estava sendo mostrada nas telas de TV. Eles até foram presenteados com uma placa pelo seu trabalho com essa mesma data gravada nela. De repente, suas divagações politicas e contos de guerras profanas pareciam ainda mais perturbadores, com letras como ‘Eu não acho que você confia no meu suicídio auto justificado’ fazendo o single Chop Suey! ser banido das rádios, inadvertidamente abastecendo a reputação da banda como o próximo Rage Against the Machine. A banda não teve escolha, além de apertar os cintos e se segurar firme.
“Imagine só ser uma banda de L.A.”, John ri. “Idealizando seus heróis na escola e vê-los se tornando seus parceiros… nós fomos sortudos”.
Tendo ou não a sorte sorrindo para eles, o System não escolheu esperar sentado. Steal This Album! foi lançado logo depois e a banda foi convidada para tocar no Reading & Leeds 2003. Mas ao invés de ter o nome quase no final da lista, como estavam dois anos antes, eles tocaram antes do Metallica. Se havia alguma ambiguidade, essas apresentações cimentaram seu status como os novos reis do heavy.
O álbum duplo Mezmerize/Hypnotize se seguiu em 2005, foi gravado no super estúdio de Rick Rubin, The Mansion, que dizem ser assombrado pelo fantasma de uma mulher assassinada pelo seu amante, cuja presença levaria a encontros diabólicos para músicos trabalhando lá, incluindo Slipknot e RHCP. Todas as manhãs às 4 da madrugada, o guitarrista Daron Malakian se remexia em sua cama, tentando bloquear os ruídos sobrenaturais se arrastando de seus alto-falantes. O que quer que fosse, funcionou. Ambos os álbuns subiram nas paradas pelo mundo e o single B.Y.O.B. deu ao System seu primeiro Grammy.
Internamente, entretanto, as coisas estavam se tornando cada vez mais insuportáveis. Havia rumores de ônibus separados que os levavam a trailers individuais de backstage, os quatro membros raramente interagiam antes das luzes se reduzirem para a hora do show. Após o anúncio do hiato, no último show em um domingo à noite na Flórida, Daron se despediu com as palavras: “Nós voltaremos, só não sabemos quando”. Parecia tudo incrivelmente agourento.
“Uma grande parte disso foi toda a atenção”, revela John. “A vida se tornou mais sobre nós enquanto System do que nós enquanto indivíduos. Não por parte da imprensa ou dos fãs, porque isso é esperado. Mas na nossa vida pessoal? Até com a família era tipo: ‘Será que podemos falar qualquer outra coisa que não seja System?’. Nós precisávamos de um tempo”.
E assim eles fizeram: Daron e John se uniram para formar o Scars On Broadway, Shavo trabalhou com a lenda do Wu-Tang RZA (“Nós estávamos muito próximos”) e Serj entrou em uma hiperventilação criativa com lançamentos solos e parcerias sem fim, assim como administrou seu selo Serjical Strike.
“Eu precisava fazer o disco que pretendia fazer”, o frontman falou à MTV na véspera de seu álbum solo de estreia. “Sempre terei mais material do que posso dar conta de lançar”.
Serj não estava mentindo. Enquanto claramente nenhum membro do SOAD ficou à toa durante o hiato, foi o enigmático vocalista que parecia o mais entusiasmado em seguir novos caminhos. Depois de exorcizar seus próprios demônios, parecia que o resto da banda estava simplesmente fazendo hora, esperando que Serj telefonasse com novidades de uma epifania, percebendo que fazia muito tempo ou que ele estava simplesmente ficando sem coisas para fazer. Mas o telefone não tocou, deixando-os sem escolha a não ser sentar e assistir o diário de seu vocalista ficar cheio, levando às tensões compreensíveis que se seguiram.
Não seria até 2011 que os fãs teriam a chance de ver os quatro membros do SOAD dividindo o palco novamente, apesar da espera pelo sucessor do álbum duplo de 2005 ainda continuar. Tudo bem em tirar um tempo para recarregar as baterias – ainda mais quando vocês são uns dos artistas mais proeminentes de seu gênero. Mas, pô… 10 anos?
“Havia lances musicais que todos nós queríamos fazer fora da banda”, admite John. “Levou mais tempo do que eu gostaria. Se fosse por mim, nós teríamos começado a fazer um novo álbum em 2009. Mas é o que é. O System está vivo e pegando fogo – na maior parte do tempo. Todos contribuem com algo e a combinação é difícil de superar. Pode soar egoísta, mas se você tem um problema com isso, suba no palco e tente nos impressionar. Eu adoraria que isso acontecesse. Desafio todos os garotos por aí: comece a escrever e tocar. Estamos esperando por vocês!”
E o que podemos esperar após a turnê?
“O futuro pode nos trazer qualquer coisa”, conclui Shavo. “Posso dizer que existem novas faixas… mas ninguém está autorizado a ouvi-las! Existe algum material pronto e temos nos encontrado para tocar novas músicas, só tocar. Simplesmente entramos na sala e tocamos. Quem sabe quando finalizaremos tudo. Estamos juntos há 20 anos e criamos uma ligação que não pode ser quebrada”, ele sorri. “Agora nos sentimos como uma banda novamente”.
E uma banda que, mais uma vez, parece pronta para começar uma revolução.
Caos sistemático – Momentos chave da vida para as lendas armênio-americanas
1992 – Serj e Daron se conhecem na Escola Armênia Rose and Alex Pilibos e começam uma banda. Eles, mais tarde, definem o nome de System of a Down.
1998 – Singles do álbum autointitulado de estreia dominam as ondas do rádio. “Lembro de ter que encostar o carro na primeira vez que ouvi Sugar no rádio”, relembra John.
1998 – SOAD é convidado para abrir show para o Slayer. “Quando os fãs vão ver Slayer, tudo o que eles querem é Slayer”, diz Shavo. “E agora é assim com a gente!”
2001 – Toxicity explode. SOAD divide a turnê Pledge of Allegiance como atração principal com Slipknot, Rammstein e Mudvayne.
2005 – Sucedendo o Steal This Album! (2002), o álbum duplo Mezmerize-Hypnotize é lançado com seis meses de diferença. Daron estranhamente divide os vocais com Serj. A banda é atração principal no Download.
2006 – SOAD anuncia a notícia chocante de um hiatus. Ninguém sabe que diabos está acontecendo.
2011 – Após cinco anos, a banda retorna como atração principal do Download novamente. “Nos sentimos muito honrados”, sorri Shavo.
2013 – Shavo pergunta aos fãs no Facebook se o SOAD deveria considerar outra pessoa “que queira ser vocalista do System, não alguém a quem temos que implorar”. Porém, as tensões não aparecem no seu retorno no Reading & Leeds.
2015 – Wembley – e um novo álbum?
