System of a Down na nova edição da revista Rockaxis
Situação política no Brasil, Chile e Argentina, impacto do ‘Toxicity’ depois dos atentados de 11 de setembro, preparativos para um novo álbum, tudo isso e muito mais na nova edição da revista chilena Rockaxis, que traz uma matéria exclusiva sobre o System of a Down. Confira a entrevista na íntegra:
Revista Rockaxis edição 149 | Setembro 2015
Apesar de ainda estarem em turnê sem um novo material, este ano foi um marco para o System of a Down: pela primeira vez em sua história eles tocaram na Armênia, local de onde vieram os seus antepassados, com isto o centenário do genocídio ocorrido no país foi lembrado, uma causa que a banda tem buscado o reconhecimento desde a formação inicial, nos anos 90. Nós falamos com o baterista John Dolmayan.
John, conte-nos antes de tudo como foi a experiência que tiveram no Chile em 2011, quando tocaram para mais de 20.000 fãs.
Foi incrível. Nós estivemos na América do Sul apenas uma vez, mas foi fantástico. Os fãs são ótimos em toda a América do Sul. Eles foram nos recepcionar no aeroporto, foram ao hotel, são muito apaixonados. Cantam cada palavra de cada música, é como se não precisássemos estar no palco, porque eles poderiam cantar por nós.
Como são uma banda tão comprometida politicamente, o que vocês acham da situação política do Chile, Brasil e da Argentina?
Eu acho que em qualquer lugar onde existe uma quantidade desproporcional de classe alta contra a classe baixa, um nível de pobreza incontrolável, os problemas vão sempre existir. A responsabilidade de qualquer sociedade é de se levantar e levar os problemas ao governo, porque o governo existe para servir as pessoas. De qualquer forma, eu apoio somente as manifestações pacíficas, eu adoro quando os jovens saem para protestar, quando apoiam políticos em que acreditam e quando tentam criar lealdade através deste sistema, mas você não pode tomar iniciativas violentas. No final das contas, o que a história mostra é que a violência gera mais violência. Os governos devem respeitar o direito das manifestações e orientar a polícia para que apenas os acompanhem, de forma pacífica. Mas nós não iremos resolver quaisquer problemas políticos, somos uma banda de rock. Nós entretemos as pessoas, porém, nós temos as nossas opiniões. Nós gostamos de ver as pessoas felizes, pode ser um pouco ingênuo, mas por que não? Por que as pessoas não podem ser felizes?
Mesmo que você diga que são apenas uma banda de rock, que gostam de entreter as pessoas, você acha que existem fãs que também seguem suas opiniões?
Acredito que alguns sim. A maioria nos escutam porque eles gostam das nossas músicas. Quando eu era criança, escutava música e às vezes não sabia quais bandas eram. Eu tinha amigos que sabiam tudo, inclusive o que os músicos comiam, sabiam como eram sua vida pessoal, se interessavam por isso, eu não. Mas também não é errado. Claro que existem pessoas que nos escutam e absorvem um pouco da mensagem e se inspiram, mas existem outros que querem tomar apenas uma cerveja e apreciar a música. Tem que tomar cuidado, porque pode parecer um sermão, mas não estamos aqui para isto. Tem que ser como especiarias em uma sopa, você pode colocar mais sabor até que não interfira no sabor. E lembre-se que pode existir pessoas que amam uma banda como também podem odiar, e temos tido sorte o suficiente, porque um monte de gente gosta do nosso sabor.
Esse ano foi celebrado o centenário do genocídio armênio, vocês aproveitaram a oportunidade para fazer um show gratuito na Armênia. Como foi a experiência de conhecer os seus fãs neste território?
Isso foi a coisa mais importante que o System of a Down fez em sua carreira. Para nós, foi uma grande honra e também uma forma de retribuir aos nossos antepassados, o nosso povo, foi algo profundamente significativo. Na verdade, antes de sairmos para tocar, estávamos tão animados que eu tive que falar para a banda ‘temos que agir como se fosse o Super Bowl, se você partir com convicção, sabendo que está jogando o Super Bowl, tudo será natural. Temos que chegar lá como se fosse um ensaio. Temos que deixar fluir tudo que iremos fazer. Isto é o que fazemos, tocamos música, vamos sair e fazer o que sabemos. Deixe que os fãs pensem sobre a importância do evento, deixaremos isto com eles. A banda faz o som. Não podemos ficar nervosos, não podemos fazer isso hoje à noite, o mundo está nos olhando.’
Qual foi a reação dos fãs na Armênia desde que vocês desembarcaram até o término do concerto?
Foi incrível, porque não havia somente fãs armênios, como também do Irã, e de todo Oriente Médio. Eles tiveram poucas oportunidades para nos verem em um país ocidental por problemas entre o Irã e os Estados Unidos, que agora parece tudo resolvido. Lá estavam pessoas da Turquia, Europa, alguns da África. Isso foi o melhor, não estávamos tocando apenas para os armênios, mas sim para todo mundo em nossa terra. Estávamos criando uma ponte entre diferentes culturas, etnias e o fator que nos unia era música. Isso foi muito especial. Foi também importante que tenhamos tocado para lembrar do genocídio armênio, e também conscientizar que os genocídios ainda existem. Não há desculpas, por isso nunca devem ser justificados.
Gostaríamos de perguntar sobre o impacto que teve o álbum ‘Toxicity’ depois dos ataques de 11 de setembro, porque ele não só se tornou um álbum muito bem sucedido em vendas em um curto espaço de tempo, mas também algumas de suas faixas foram proibidas em estações de rádio.
Sim, eu acho que foi um erro. Se o ataque foi projetado para desmoralizar os americanos, pegar a arte e proibi-la faz exatamente com as coisas se correspondam. Foi um momento de fraqueza. Isso às vezes acontece com as grandes empresas, o grupo empresarial ‘Clear Channel’ possui muitas estações de rádio, e eu entendo porque eles fizeram isso, eles queriam que as pessoas se sentissem felizes, mas não é necessariamente a música “feliz” que faz você feliz, às vezes a música agressiva te faz feliz, Pink Floyd me faz mais feliz do que qualquer coisa, e é deprimente! Quando estou nos meus momentos mais sombrios e me sinto sozinho, eu ouço a música e sinto que a escreveram para mim. Se você ouvir só a música feliz, como você estará se identificando? Então eu acho que quando você coloca a felicidade à força, acaba tendo um efeito negativo, porque não tem como se sentir identificado. Não nos efetou muito, mas estávamos mais preocupados com o que estava acontecendo no mundo com o começo de uma guerra.
Falando de música, para quando podemos esperar um novo álbum do System of a Down?
Estamos trabalhando com isto no momento. Este processo vai demorar o tempo que for necessário, porque fazer um álbum, após dez anos sem lançar nada, tem que ser algo em que nós acreditamos de verdade. Nós apenas começamos a falar sobre música, mostrando algumas composições, fazendo com que o processo se inicie, mas isso vai demorar um pouco. Não temos uma data.
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