Serj Tankian fala sobre os conflitos na fronteira entre a Armênia e o Azerbaijão

Serj Tankian (solo)

Serj Tankian concedeu uma entrevista ao portal Greek City Times para falar sobre os violentos conflitos que se intensificaram novamente na última semana entre a Armênia e o Azerbaijão.

No último dia 27, o Azerbaijão iniciou uma série de ataques contra a principal cidade de Nagorno Karabakh, Stepanakert, área que é povoada em sua maioria por armênios. Desde o último domingo, a disputa territorial já vitimou 51 soldados armênios e deixou diversos feridos entre a população civil .

Leia na íntegra a entrevista do vocalista do System Of A Down:


Nagorno Karabakh (também conhecida por Artsakh) tem uma herança armênia contínua inegável desde pelo menos 500 AC e sempre foi uma região de maioria armênia, até hoje. Por que os azeris e os turcos sentem tanto que devem expulsar a população armênia nativa desta região?

Tankian: Acho que o Azerbaijão e a Turquia têm intenções diferentes em seus ataques contra Artsakh e a Armênia. Para o Azerbaijão, é uma questão de sobrevivência do regime, pois eles têm um governo petro-oligárquico corrupto que está sendo desafiado pela oposição, que encontra-se em grande maioria na prisão, e pelo povo. A motivação da Turquia é e tem sido por mais de um século o pan-turanianismo. É por isso que eles cometeram o genocídio contra os armênios, gregos e assírios um século atrás e, claro, usaram nossas nações como bodes expiatórios para suas derrotas durante a Primeira Guerra Mundial. O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e seus companheiros corruptos, opressores e bandidos estão usando o aventureirismo militar na Síria, na Líbia, no Mediterrâneo e agora no Cáucaso para promover sua agenda. Essas são as principais motivações dos dois agressores neste conflito.

Como gregos, compartilhamos o mesmo trauma geracional que o genocídio e a limpeza étnica causaram aos armênios. A maioria dos gregos veem os ataques da Turquia e do Azerbaijão contra Artsakh como um potencial segundo genocídio contra os armênios. Os gregos estão certos em acreditar nisso ou é um exagero?

Tankian: Quando os netos dos perpetradores do genocídio estão atirando nos netos dos sobreviventes do genocídio, bombardeando não apenas áreas militares, mas também civis, é seguro supor que os povos de Artsakh e da Armênia estão travando uma batalha existencial. Esta também é a mensagem que existe em Yerevan hoje. Os armênios não podem perder.

O governo grego expressou solidariedade aos armênios e revelou que a visita do ministro das Relações Exteriores, Nikos Dendias, a Yerevan foi “iminente”. A Grécia, entretanto, não condenou o Azerbaijão pelas tentativas de invasão de Artsakh. Além de palavras vazias de solidariedade, o que a Grécia e a comunidade internacional deveriam e poderiam fazer para acabar com os ataques do Azerbaijão patrocinados pela Turquia?

Tankian: Os armênios estão muito gratos pelo apoio dos líderes da Grécia e de Chipre nesta batalha. Além de chamar a atenção do Azerbaijão e da Turquia pela invasão, a Grécia pode se associar a Chipre para insistir que a União Europeia sancione a Turquia e o Azerbaijão pelos ataques agressivos a Artsakh e Armênia. Não entendo como a UE pode ameaçar sancionar a Turquia sobre a questão da perfuração [no Mediterrâneo Oriental com quatro navios] e não incluir o início de uma guerra total no Cáucaso na mesma semana.

Embora o governo grego tenha sido “fraco”, como a mídia grega descreve, a solidariedade pública em apoio à Armênia e Artsakh tem sido enorme. No lado oposto dos governantes, houve protestos, usuários gregos no Twitter criaram hashtags em apoio a Artsakh, hackers gregos derrubaram mais de 150 sites do governo azerbaijano e o primeiro contingente de voluntários de etnia grega, junto com voluntários armênio-gregos, estão se preparando para deixar a Grécia para lutar e defender Artsakh – com mais contingentes de voluntários se organizando para partir nas próximas semanas. Você tem alguma mensagem em particular que gostaria de dar ao povo grego e o que eles podem fazer para apoiar a Armênia e Artsakh durante esta crise?

Tankian: Em primeiro lugar, obrigado por todo o apoio. Eu não estava ciente do hackeamento de sites que ocorreu. Seria bom se mais disso acontecesse voltado para os centros de comando e controle aéreos azeris e turcos. A Armênia também apoiou a Grécia quando a Turquia realizou exercícios militares com navios no Mediterrâneo. Acho que precisamos trabalhar uns com os outros e nos ajudarmos nessas situações, já que estamos lidando com o mesmo agressor que conhecemos muito bem.

Também estou emocionado com os voluntários que querem vir e lutar por justiça. A ajuda humanitária também pode ser muito útil, é claro, já que uma boa parte da população de Artsakh está vivendo em abrigos antiaéreos neste momento. Acima de tudo, devemos fazer com que os líderes ouçam nossas vozes, precisamos fazer com que eles trabalhem através da União Europeia e organizações internacionais para que ajudem a Armênia e Artsakh. Isso seria muito útil. Novamente, sou pessoalmente muito grato.

Virando a chave para os EUA, o ex-Conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, descreveu o relacionamento de Donald Trump com Erdogan como um “bromance”. Trump também disse que se dá “bem” com Erdogan e o descreveu como “ótimo”. Que tipo de impacto esse relacionamento teve nesta crise em Artsakh?

Tankian: Como você disse, o “bromance” de Trump com Erdogan deu a ele luz verde para fazer o que quisesse na região. Isso é óbvio. Os EUA não defenderam seus próprios aliados curdos na Síria contra Erdogan. A administração dos EUA não moderou a Turquia na Líbia, Grécia, Chipre, nem os caucos [mediadores que auxiliam em resolução de conflitos]. Muitos dizem que é por causa de seus investimentos em hotéis na Turquia e no Azerbaijão. Pode haver algo ainda maior do que isso. É por isso que é crucial que a Rússia e a União Europeia moderem as ambições e ataques regionais da Turquia.

Embora a mídia do Azerbaijão já descreva os voluntários da Grécia que vão para Artsakh como “mercenários”, o fato é que eles não estão sendo pagos, ao contrário dos terroristas sírios que a Turquia recebeu e ainda está transferindo para o Azerbaijão. Estes são os mesmos terroristas sírios que estavam/estão atacando e matando a minoria armênia na Síria. Esses mercenários jihadistas estão agora às portas do Irã e da Rússia, e a Turquia corre o risco de criar uma crise geopolítica mais ampla em toda a região. Como você analisa esses eventos?

Tankian: Eu concordo. O afunilamento de combatentes sírios sob o controle da Turquia desestabilizará ainda mais a região. Irã, França e Rússia expressaram suas consternações com esta revelação. Há relatos de que o Irã está reunindo tropas na fronteira com o Azerbaijão. A Rússia não quer lutar contra a Turquia em outra frente, como já ocorre na Síria e na Líbia, então a Turquia está realmente pressionando como sempre. Se não for interrompida, isso ocasionará uma guerra regional maior e talvez pior.

A Turquia e grande parte do mundo resistem em não reconhecer o genocídio grego, armênio e assírio de 1914-1923. Agora, mais do que nunca, parece que o reconhecimento do genocídio é um imperativo internacional. Você acha que o reconhecimento e a reparação internacional poderiam ter feito a diferença para evitar a atual tentativa de invasão de Artsakh pela Turquia e Azerbaijão?

Tankian: Com certeza! Sem punir um crime, muito menos um crime contra a humanidade, os perpetradores podem agem impunes. 600 anos de experiência diplomática turca estão em ação. Dizem a todos o que querem ouvir e depois fazem o que querem. São as muitas faces da diplomacia turca. Nós sabemos muito bem. No entanto, Erdogan está abusando da sorte e em breve chegará o momento de se vingar. Acho que a comunidade mundial deve encorajar a mudança de regime tanto na Turquia quanto no Azerbaijão para que possamos lidar com líderes mais razoáveis e que seu povo também possa progredir nos próximos milênios sem ser preso por falar o que pensa.

A Armênia é um país pobre e sem litoral com apenas 3 milhões de habitantes, contra 80 milhões na Turquia e 9 milhões no Azerbaijão. Os gastos militares do Azerbaijão e da Turquia em comparação com a Armênia são várias vezes superiores e incomparáveis. No entanto, os armênios são obstinados e defendem com sucesso suas terras ancestrais. É um povo nativo que luta contra invasores neo-imperialistas e supera essas adversidades intimidantes enfrentadas contra eles. No entanto, apesar da bravura dos armênios, mais da metade dos soldados martirizados têm entre 19 e 20 anos. Você concorda com a declaração que acabamos de fazer e que tipo de impacto essa guerra terá nas gerações futuras?

Tankian: Artsakh e Armênia estão travando uma batalha existencial que não podemos perder. É por isso que toda a nação armênia está unida em fazer tudo que podemos para proporcionar um amanhã melhor para nossos filhos. Está correto. Estamos lutando contra um inimigo com mais armas, que gastam muito mais que nosso orçamento de defesa. Mas a história nos ensinou que não são os exércitos que ganham as guerras, mas o espírito, os corações e as mentes daqueles que estão dispostos a se sacrificarem que ganham as guerras. Ninguém na história conquistou Artsakh. Eles são nossos espartanos.


Música

Em 2016, Serj Tankian lançou ‘Artsakh’, uma canção em homenagem à resistência dos combatentes armênios em Nagorno-Karabakh com mensagens de protesto aos agressores azeris.

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