Serj Tankian relembra as emoções dos shows do SOAD no Brasil: ‘Nunca senti isso antes’

System of a Down

Foto: Alexandre Durão/G1

Em nova entrevista ao Brasil, concedida ao G1 – Portal de notícias da Globo, Serj Tankian falou sobre seu EP ‘Elasticity’, ativismo no rock, reagiu ao clássico meme ‘System of a Dilma’ e falou sobre a atmosfera dos shows do System Of A Down no Brasil, em 2011 e 2015.

Leia a matéria na íntegra feita pelo jornalista Rodrigo Ortega.


Serj Tankian está ocupado. Ele participou de uma revolução na Armênia, ajudou a trocar o governo do seu país por outro mais democrático em 2018, fez um filme sobre isso, reuniu o System of a Down após 15 anos para denunciar “crimes de guerra” do Azerbaijão em 2020 e também lançou um EP solo.

Mas o músico e ativista de 53 anos pareceu relaxado e sem pressa para explicar seu trabalho em uma conversa em vídeo com o G1O libanês de origem armênia falou de sua casa, em Los Angeles.

G1 – Seu trabalho solo é muito variado: jazz, eletrônica, trilhas orquestradas… Mas esse novo EP (“Elasticity”) parece com System of a Down mesmo. Por quê?

Serj Tankian – Não sei, a música vem para mim de uma consciência coletiva. Se tem atitude, é provavelmente rock, aí eu incorporo isso. Essas músicas vieram cinco, seis anos atrás, todas juntas. Tinham um caráter punk rock, especialmente “Electric Yerevan”, “Elasticity” e “Your Mom”.

Eu achei que talvez a gente pudesse trabalhar elas com o System, porque me passava esse sentimento. E a gente tentou. A gente trabalhou nas músicas um do outro naquela época, estávamos nos questionando sobre fazer um disco juntos. Mas não conseguimos, no final, nos encontrar filosoficamente sobre o futuro. Então finalizei as músicas eu mesmo e lancei o “Elasticity”.

G1 – Você mudou algo nessas músicas de cinco anos atrás para refletir a guerra, a pandemia ou algo atual?

Serj Tankian – A única que mudei foi “Your Mom”. Era sobre uma organização terrorista e a letra era uma análise, como “Prison Song”, do System. Mas as coisas mudaram nesse tempo e resolvi botar um novo personagem, uma senhorinha combatendo o crime de chinelos. E virou uma música surreal, de um lado é bem séria, e depois “pera aí, ele falou da roupa de uma mãe?”. É nonsense, amo isso.

G1 – Você também está lançando ‘Truth to Power’ (documentário sobre seu ativismo e a revolução na Armênia, que sai no dia 27 de abril na Amazon Prime). No Brasil tem muito fã de rock que fala: ‘Ah, queria que meu ídolo só tocasse e não falasse nada’. Você ouve muito isso? Qual é sua resposta?

Serj Tankian – O filme é uma resposta a eles. Mostra que eu era um ativista antes de virar um artista. E eu toco vários tipos de música: clássica, jazz, trilhas de filmes, inclusive rock. Quando escrevo algo, seja sobre amor ou política, é uma coisa sobre a qual eu tenho um forte sentimento. Ninguém pode me dizer o que falar ou o que não. Porque está na música.

Então dizer a um artista que ele deve só tocar música e não falar de política é como falar para um jornalista que ele só deve fazer entrevistas e não consertar o banheiro, sei lá. Não faz sentido. Somos seres dinâmicos e sensíveis nesse planeta. Podemos ser bons em mais de uma coisa. E se eles não são, o problema é deles. ‘Truth to Power’ mostra exatamente isso.

G1 – Hoje no Brasil há vários artistas atrás desse ativismo. Estamos vivendo uma crise sanitária na pandemia, e isso mobiliza muitas pessoas. Com sua experiência, o que funciona e o que não funciona em protestar através da arte?

Serj Tankian – Protestar pela arte é ok, mas não é só escrever uma coisa no computador e postar. É também estar presente.

Obviamente com a Covid o protesto presencial não é recomendado, mas o que eu quero dizer é que se você quer mudança, faça a mudança constitucionalmente e faça isso na urna. E eu digo isso não só para artistas, mas para todo mundo, obviamente.

G1 – Seu amigo Tom Morello, do Rage Against The Machine, disse que vocês fundaram o Axis of Justice (movimento de músicos ativistas dos EUA) depois que ele foi a um festival de rock e viu várias tatuagens de “White power” (poder branco, slogan racista) no público. Você também vê essa estranha identificação de um público ultraconservador, racista e de extrema direita com o rock?

Serj Tankian – Sim e não. Eu não acho que é estranho. Você pode gostar de country music (estilo associado com conservadores nos EUA) e apoiar o Bernie Sanders (político de esquerda).

Essa coisa da extrema-direita tem a ver com nossa época, com imigração, com mudança climática, pessoas querendo fugir das políticas centristas, que estavam enjoadas do que os dois partidos dos EUA tinham a oferecer. E elas olharam para um outsider.

Mas elas escolheram o outsider (Donald Trump) totalmente errado! Você não escolhe um idiota que vai causar caos e quebrar o governo. Você tem que escolher alguém que vai lutar pelas pessoas, não por ele, a família dele e seus amigos da elite. Acho que essas são as razões pelas quais tantos governos foram para a extrema-direita.

Mas a boa notícia é que tudo vai mudar. Porque os jovens sabem que a maior preocupação é nossa própria extinção causada pela mudança climática. E quando lidamos com algo tão importante, não temos tempo para malditos ditadores nem canalhas da extrema-direita. Ninguém tem tempo para essa baboseira. Então os jovens vão mudar o mundo nos próximos quatro ou cinco anos. Anote minhas palavras. Nós vamos estar vivendo em um tempo diferente.

G1 – No Brasil é quase uma piada o fato de que muita gente não faz ideia do que você canta no começo de “Chop Suey!”, é muito rápido. Mas as pessoas amam mesmo assim. Como você faz para transmitir essa raiva na voz que vai além das palavras?

Serj Tankian – A primeira questão do filme é se a música pode mudar o mundo. E o jeito que eu explico essa mudança é que a música é um meio intuitivo.

Por exemplo, a primeira vez que eu ouvi Rage Against The Machine, eu não entendia as letras do Zack de La Rocha. Eu só senti: ‘Aaaaah!’ Sabe? Eu senti a raiva nos meus ossos, eu senti a música passando por mim.

Foi uma resposta intuitiva, uma resposta do coração, do lado direito do cérebro. É isso que a música faz com a gente primeiro. Você ouve a letra por último. Mas se as letras são poderosas também, você também faz um processamento do lado esquerdo do cérebro e realmente pensa no que foi escrito.

Por exemplo, “Prison Song”, sobre privatizar prisões, “three strike laws” (leis dos EUA que pedem prisão perpétua no terceiro crime, mesmo que seja brando), injustiça, racismo, etc. Depois que você processa isso, está inspirado, pode realmente procurar seu deputado, seu parlamento, tentar fazer uma mudança positiva.

Tem esse ciclo que você cria da inspiração para a ação. E é assim que a música pode mudar o mundo.

G1 – Ao gravar músicas raivosas, como essas do novo EP, como você prepara sua voz para expressar essa raiva? Você lê as notícias antes de entrar no estúdio?

Serj Tankian – Eu leio o tempo todo. Mas não tem a ver com a música. Nem sempre estou criando música. Mas leio todo dia. Notícias de verdade. Não desinformação de rede social. Eu sou um ativista desde adolescente, tenho 53 anos. Leio muito, diferentes livros, de geopolítica, justiça social. E quando vou escrever letras, eu aplico meu conhecimento e meus sentimentos.

G1 – Acontece com você de encontrar fãs de outros países que não sabem que você canta sobre isso?

Serj Tankian – Acontece sim. Eles podem não entender a língua. Mas às vezes eles só não imaginam que eu cantaria isso. Algumas letras nossas são vagas, mas algumas são muito específicas. Meu ponto de vista sempre foi muito específico.

Então quando as pessoas ficam surpresas, eu fico surpreso com elas! Como você pode se surpreender com meu ponto de vista! E você é um fã?! Como pode ser?! Eu fico chocado. Estou fazendo isso há 25, onde diabos você estava?

Se você ouvir meus discos pela primeira vez, ok, mas se você está ouvindo System of a Down e minhas músicas por muito tempo e você me diz para não fazer política na música, eu não sei o que falar.

G1 – O motivo mais comum para uma banda muito famosa voltar é que algum festival ofereceu milhões de dólares, ou que o baixista tem dívidas, coisas assim. Mas o motivo do System of a Down foi diferente. Pode explicar?

Serj Tankian – Em 27 de setembro de 2020 os exércitos do Azerbaijão e da Turquia, junto com mercenários sírios, atacaram o enclave armênio de Nagorno-Karabakh, que chamamos Artsakh. Eles são ditaduras, nós somos uma democracia. Eles nos atacaram. Não foi só o Azerbaijão, mas o segundo maior exército da OTAN, a Turquia, atacando.

Por 44 dias, esses jovens homens protegeram suas famílias com o melhor que podiam em terras em que eles viviam por 2,5 mil anos. E acabou em uma catástrofe humanitária. O Azerbaijão e a Turquia bombardearam igrejas, escolas, centros civis, mataram civis, cometeram crimes de guerra, mercenários sírios cortaram cabeças.

Foi catastrófico para a comunidade armênia pelo mundo ver isso. A imprensa dos EUA estava ocupada com as eleições e o mundo inteiro ocupado com a Covid. Ninguém entendia o que estava acontecendo. O Azerbaijão e a Turquia usaram isso para alimentar notícias falsas, desinformação. Eles tinham robôs nas redes sociais atacando qualquer um que escrevesse em apoio aos armênios. A Cardi B e o Elton John foram atacados. Eram robôs de redes sociais usados como armas.

A gente tinha que fazer alguma coisa. A gente não lançava músicas há 15, 16 anos. Mas não era por nós. É por nosso povo, por justiça, por verdade.

Então nós lançamos essas duas músicas: “Protect The Land” e “Genocidal Humanoidz”, com os clipes. E eles realmente tiveram um impacto na campanha de desinformação do Azerbaijão. E nós também usamos como uma chance para levantar fundos para doar para a Armênia para ajuda humanitária.

G1 – Foi uma ação muito rápida para uma banda que não lançava músicas novas havia 15 anos.

Serj Tankian – Sim. A gente teve sorte porque já tínhamos a música “Protect The Land” escrita sobre os soldados. Eu estava na Nova Zelândia e eles em Los Angeles. John (Dolmayan, baterista) nos chamou e falou: a gente tem que fazer algo. E todo mundo: ‘em que velocidade a gente pode fazer isso?’ ‘Temos uma música’.

A gente queria lançar no dia seguinte, se pudesse. O que foi incrível. Porque não era por nós, não era por nossas preferências artísticas, o que fosse. O que nós tínhamos para usar como uma arma do bem para nosso povo?

G1 – Qual é a chance de o mundo ouvir um novo disco do System of a Down depois da pandemia?

Serj Tankian – Eu não sei. O tempo vai dizer. Eu acho que dá uma esperança o fato de que a gente conseguiu se juntar e lançar aquelas duas músicas, os clipes e fazer a campanha de arrecadação. Nesse momento nossos shows estão cancelados em 2021. Tem até uns shows em Los Angeles que podem acontecer antes do fim do ano. Mas vamos ver.

G1 – Dá para notar semelhanças entre Sepultura e System of a Down. Você ouvia Sepultura quando era mais novo? Tem influência deles?

Serj Tankian – Sim, a gente até fez turnês com Slayer e Sepultura. A gente andava com o Max (Cavalera) e os caras. Eles nos apoiavam muito, e a gente amava a música deles. Então sim, fez parte das nossas influências, com certeza. Eu acho que a gente admirava um ao outro por levar o som dos nossos países de origem para o rock e o metal (a música tradicional armênia, no caso do System, e a música indígena e outros ritmos brasileiros, no caso do Sepultura). Entendíamos e respeitávamos isso um no outro.

G1 – O que você lembra dos shows no Rock in Rio em 2011 e 2015?

Serj Tankian – Caramba, não era um festival, era uma cidade inteira. Para o documentário, esse foi um dos shows que eu gravei com minha própria câmera, que estava amarrada na minha cabeça, foi no Rio. Eu lembro de ligar a câmera em frente ao espelho, ir para o palco, colocar a guitarra, falar com o público e ver uma cidade inteira explodir com paixão e amor. Maravilhoso, nunca senti isso antes.

G1 – Não sei se você sabe, mas existe um meme aqui no Brasil de misturar discursos raivosos como se a pessoa estivesse cantando “Chop Suey!”. O mais viral foi um discurso da ex-presidente Dilma. Posso te mostrar?

Clique aqui e assista a reação de Serj ao meme, aos 7 minutos e 12 segundos de vídeo.

Serj Tankian – Pode… (Assiste e ri).

G1 – O que você acha?

Serj Tankian – Acho hilário. Acho engraçado, eu estava gargalhando ouvindo e assistindo. Era o Lula, certo? Dilma e Lula? Engraçado, muito engraçado. Pelo menos usaram eles e não o Bolsonaro.

G1 – Eles estavam falando de desigualdade e do FMI.

Serj Tankian – Sim, então é ok. Eu não vou pedir os direitos autorais deles.

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