De Bob Marley a Tom Morello, as inspirações de Serj Tankian para ser um músico ativista

Serj Tankian (solo)

Em nova entrevista ao jornalista Steve Baltin, da Forbes, Serj Tankian falou sobre suas influências no ativismo musical, que vão do amigo Tom Morello à lenda jamaicana do reggae, Bob Marley. Leia abaixo!

Steve Baltin: Quando o seu ativismo musical despertou? Você atingiu a maioridade naquele período dos anos 80, onde o ativismo estava em alta.

Serj Tankian: “Lembro de ‘Biko’, de Peter Gabriel, que foi uma época muito inspiradora em termos de ativismo. ‘We Are The World’, certo? Foi um momento onde a música e o ativismo despertaram muito. Eu me tornei um ativista principalmente por causa da hipocrisia do governo dos EUA em não reconhecer adequadamente o genocídio armênio, até dezembro de 2019, apenas um ano e pouco atrás. Isso me fez sentir como se isto fosse um fato histórico que está sendo empurrado para baixo do tapete por motivos geopolíticos ou econômicos, então quantas outras verdades estão sendo suprimidas porque alguém está ganhando dinheiro ou por outros motivos nefastos? Então, no final das contas, isso fez com que eu me tornasse um ativista. Eu era um ativista antes de me tornar um artista.”

Baltin: Em que ponto, ao mesclar ativismo e música, você percebeu a extensão do poder que teria? Porque quando você começou, não tinha ideia do que o System iria se tornar.

Tankian: “Verdade, especialmente pelo tipo de música que tocávamos. Foi tão louco, uma ginástica musical, para a esquerda, forte, e o rádio mudou felizmente quando estávamos entrando nesse cenário. O formato do rádio mudou e tivemos a sorte de poder fazer parte da cena musical pesada de Los Angeles nesse sentido. Mas eu acho que percebi isso logo após o 11 de setembro, quando escrevi um texto chamado ‘Understanding Oil’ – leia aqui, que agora é utilizado em universidades para aparentemente ensinar redações (risos). Na época, houve uma forte reação contra qualquer coisa que questionasse a geopolítica dos EUA, os 50 anos de apoio a ditadores no Oriente Médio e uma política unilateral com Israel e Palestina escolhendo a abordagem unilateral de vingança contra uma abordagem multilateral de justiça tendo a ver com a caçada e a punição aos responsáveis ​​pelos ataques de 11 de setembro. Tudo isso é muito lógico e faz sentido ler agora, mas na época foi um texto muito polêmico. A Clear Channel estava tirando todas as nossas músicas do rádio. Nosso single da época, que era ‘Chop Suey!’, saiu do ar na semana de 11 de setembro, quando alcançamos o topo das paradas da Billboard no país. E para aumentar ainda mais a merda do estresse, estávamos em turnê. Uma semana depois do 11 de setembro, estávamos em turnê com flashes diários de sinais de alerta em laranja e vermelho com o Bush aparecendo na TV e dizendo: “Outros ataques terroristas podem estar chegando”. E nós ficávamos na frente de 15, 20 mil fãs por noite, era realmente algo estressante. Foi então que percebi o poder das palavras sendo projetadas. Porque quando eu as escrevia, sempre era dessa forma. Eu escreveria ideias, interpretações, análises na internet e nunca pensaria duas vezes sobre isso. Mas nesta ocasião simplesmente explodiu e eu pensava tipo: “Merda, tem alguém ouvindo.”

Baltin: Uma das cenas de seu documentário que me fez rir foi quando eu acredito que John Dolmayan disse para você deixar a política de lado para não ofender o público, o que obviamente não é o seu estilo.

Tankian: “É o caminho que você escolhe trilhar com sua música e sua arte. E como você pode ver no documentário, nem sempre concordamos dentro da mesma banda quanto à direção que devemos tomar em termos de manter o que acreditamos como nosso mantra ou se devemos manter nossa base mais diversificada, e isso também acontece. E, para mim, a beleza de uma poderosa banda é esse puxa e empurra, eu acho, porque se há realmente uma direção muito uniforme dentro dela, sua música provavelmente não é muito interessante (risos).”

Baltin: Quando as emoções estão inflamadas, há um controle para acalmá-los em momentos de discordância?

Tankian: “Você está certo, eu acho que esses controles e equilíbrios são importantes porque colocam as coisas em perspectiva como, “Olha, cara, há três outras pessoas nesta banda e não necessariamente concordamos com este ponto em particular”. Logo após o 11 de setembro eu estava no programa do Howard Stern defendendo o que havia escrito e postado no site da banda quando os caras me ligaram. Lembro que estávamos em Denver para começar uma turnê, fiquei acordado a noite toda, não conseguia dormir por causa de tudo que acontecia. E eles dizem, “Você é um cara inteligente, nós respeitamos você. Você está tentando nos matar?” Isso é literalmente o que me disseram. E eu me senti tão mal. Eu fiquei tipo, “Pessoal, sinto muito, amo todos vocês, e é claro que não quero que aconteça nenhum mal a todos nós, mas estou falando a verdade”. Eles dizem, “Sim, nós sabemos que é a realidade, mas você não precisa dizer isso sempre”. E é isso, eu não consigo evitar! Se for uma verdade, tenho que dizer, não importa quem fique bravo. E é isso, isso é um ativista.”

Baltin: Quem são os artistas que te inspiraram a misturar música e ativismo?

Tankian: “Existem muitos. Começando com Tom Morello porque ele e eu somos amigos há muitos, muitos anos e trabalhamos juntos com o Axis Of Justice, tínhamos uma rede de rádio, uma organização sem fins lucrativos. Sua dedicação, trabalho árduo e inspiração realmente me influenciaram muito em termos de me fazer trabalhar mais nas coisas em que acredito. Então, foi um forte sentimento de companheirismo, um colega do dia a dia em minha vida como um amigo. Mas tive Bob Dylan, John Lennon, Bob Marley, que me fez dançar e me rebelar positivamente ao mesmo tempo. Tive Peter Gabriel com a faixa ‘Biko’, todo o movimento dos anos 80 de diferentes artistas falando sobre o poder e a verdade. Bruce Springsteen. São tantos, provavelmente não estou pensando em 90%. E também, honestamente, artistas armênios que, na adolescência, estavam falando a verdade ao poder sobre o que aconteceu com nosso passado, o genocídio e a música na Armênia. E eu seguia muito esse tipo de estilo, como música revolucionária. Para mim, isso serve com qualquer artista, que mesmo em uma música, mesmo que toda a sua carreira tenha sido sobre canções de amor, mas escreveu uma música espetacular, como ‘War Pigs’, do Black Sabbath. Ozzy Osbourne escreveu essas letras e é incrível, causa um impacto.”

Baltin: Você notou que sua perspectiva e prioridades mudaram conforme você ficou mais velho e tem uma família?

Tankian: “Com certeza, tornar-se pai é um evento de mudança de vida e você prioriza tudo o que você tem. Sempre digo que nosso maior medo é que nossos pais morram, até termos filhos. Então, esse medo muda para a perda de nossos filhos. É uma coisa biológica muito interessante. E, para mim, definitivamente me fez re-priorizar minha vida para que eu pudesse passar mais tempo com minha família e passar mais tempo com ele enquanto ele cresce. Estou na casa dos 50 anos e viajei por 25 anos, então não é como se eu não tivesse feito isso. Eu fiz turnês pela maioria dos países do mundo. Temos um globo para meu filho. Ele aponta e diz: “Pai, você já esteve aqui?” Eu digo, “Sim”. Ele diz: “Eu quero ir!” Então, definitivamente muda tudo.”

Baltin: Houve coisas que te surpreenderam ao relembrá-las no documentário?

Tankian: “Muito. Voltando ao meu antigo colégio armênio, revisitando isso e a forma como a história é montada também é muito interessante porque você faz conexões que nunca fez na sua própria vida. Mesmo que essa seja a sua vida e você a viveu. Mas a forma como a história é montada e a cronologia dentro daquilo é algo único. E faz você perceber certas coisas sobre você que nunca percebeu porque alguém fez um filme a partir disso. Tem muito disso. Mas é bom, adoro mesmo.”

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